CRITICA A COLUNA DE 12/05 DE CESAR GIOBBI NO JORNAL METRO: PROJETO NOVA LUZ VAI RECUPERAR O CENTRO DE SÃO PAULO


Hoje, indo para o escritório trabalhar fiquei parada no transito. Como de costume dei um “bom dia” para o moço do Jornal Metro e peguei um exemplar na tentativa de ajudá-lo a terminar logo seu trabalho e também para me distrair.
Folheando o jornal me deparei com a coluna de Cesar Giobbi falando sobre o Projeto Nova Luz e, como é um assunto de meu interesse, pus-me a ler. (Veja a matéria abaixo) Fiquei revoltadíssima com que li e não via a hora de chegar ao escritório para mandar um email para este colunista mostrando minha revolta.
Assim o fiz. Satisfiz meu coraçãozinho que esta com muita raiva. Horas depois recebi uma resposta de Giobbi. Logicamente não foi um email de palavras fáceis (compreensível por eu ter sido demasiado dura com as minhas palavras), mas me instigou a responder, mais uma vez, a algumas inquietações que continuavam no ar. Desta vez, contudo, já não havia mais nenhum ódio e percebi que ali do outro lado do computador se tratava de uma pessoa, por isso, busquei a serenidade, mantendo minha opinião e postura.
Por fim, Giobbi respondeu também de forma mais sensível e pessoal. Percebi com isso que, para mim, o mais importante foi a discussão que foi gerada e que talvez, ele não tenha mudado seu posicionamento em relação ao assunto, mas no mínimo tenha percebido que existem outras formas de encarar essa realidade. Espero que sim! (Emails abaixo da matéria)

Bom dia Sr. Cesar,

Tentarei, através deste email, ser o mais direta e menos ofensiva possível. Contudo acho que será impossível uma vez que o tema discutido na sua coluna de hoje (12/05/2010) no Jornal Metro me toca profundamente como cidadã e como arquitetura e urbanista, principalmente pelo fato de ter sido discutido com caráter eletista, discriminatório e raso.

Começo falando que estudei muito a área da Luz durante toda minha faculdade e com mais afinco no Trabalho Final de Graduação, aonde produzi uma monografia sobre algumas questões presentes naquele região. Também já deixo claro que não sou contra a requalificação de áreas degradadas da cidade, pelo contrário, acho que devam haver projetos de requalificação dessas áreas, mas de maneira interdisciplinar, cuidadosa e respeitosa, que visem desenvolver a região economicamente para que a população moradora tenha mais chances de permanecer na área, bucando diminuir a diferença socio-espacial que acontece em nossa cidade atualmente. Isto se difere completamente com o que está acontecendo no Projeto para a Nova Luz!

Este projeto, que prevê e já realizou diversas demolições na área, tenta transformar o potencial da área através da gentrificação. Ou seja, contratando algumas construtoras e um escritório de arquitetura farão um projeto urbano que acabará expulsando a população residente mais pobre para áreas afastadas da cidade, uma vez que a região da Luz se tornará inviável economicamente para a manutenção desta população. É ser muito simplista em pensar que TODAS as pessoas que moram e usam essa região são drogados e prostitutas, por que não são! Além disso, a questão das drogas e da prostituição não é resolvida com um projeto que simplesmente expulsa tais pessoas da região por que isso não fará que tais pessoas “deixem essa vida”, mas somente fará que elas busquem outros locais da cidade para fazerem o que já faziam… A questão é: não tem problema jogar os usuários de drogas, as prostitutas e as pessoas mais pobres para áreas mais afastadas, se as regiões centrais forem de uso exclusivo da classe mais abastada e da classe-média alegrinha?

Não sei se você sabe, mas a região da Luz e a central de São Paulo é onde existe a maior oferta de emprego de toda a cidade, e por que as pessoas com menos renda não terão chance de morar (como algumas já moravam e ainda resisdem ali) perto de seus trabalhos? Nem mesmo com o “percentual para moradias sociais e populares” prevista neste projeto será capaz de manter estas pessoas vivendo nesta área, por que será de um valor exorbitante para elas. Elas serão sim afastadas para a periferia e serão obrigadas a gastar horas no trajeto emprego-moradia! Mas na sua coluna este fato não é sequer comentado, uma vez que a classe social mais rica poderá contar, exclusivamente, com esse espaço com a maior infra-estrutura de transportes coletivos e públicos e saneamente básico da cidade, além dos espaços culturais alí existentes e a construir (como o caso do projeto da Sede da Companhia de Dança de São Paulo feito pelos arquitetos Herzog e De Meuron). Todo este investimento será usado pelo o menor percentual da nossa população; não me parece justo.

Quanto a parte de sua matéria que fala que as pessoas acham São Paulo feia por que não conhecem determinados bairros feitos por uma determinada construtora, mais uma vez o Sr. se coloca de maneira elitista perante a real situação da cidade. Estes bairros concentram a população mais rica e foram desenhados, parcelados, e determinados seus usos do solo pela especulação imobiliária e não pelo Estado. E por que isso é ruim? Por que é função do Estado a manutenção e regulação das construções e usos da cidade, na tentativa de evitar a expulsão de certa parte da população de determinadas regiões, manutenção de áreas verdes e fragéis ambientalmente, buscando um determinado tipo de cidade. Além disso, a especulação imobiliária sempre irá de acordo com seu principal objetivo: o lucro! Mesmo que para isso ela tenha que ocupar a cidade de maneira predatória e não atendendo todas as classes-sociais. (pobre não terá bairro desenhados por elas, por que não dará o lucro suficiente…)

Peço que o Sr. tenha mais responsabilidade e seja menos superficial quando for escrever outras reportagens que serão vinculadas na cidade. Atente que não existe somente uma classe-social, que nem todos serão beneficiados por essa obra (na verdade poucos serão). Sua coluna de hoje teve um grande caráter partidário e de bajulação de algumas empresas, fragilizando o carater informativo do jornal.

Enquanto isso, peço encarecidamente para o Diretor-chefe do Jornal Metro que busque outro colunista enquanto o Sr. Cesar vá atrás de mais conhecimentos para falar da cidade. Existem muitas pessoas capacitadas para discutirem sobre assuntos da cidade de São Paulo, de maneira mais verdadeira e menos inclinada a determinadas questões. Busquem nas grandes faculdades de Arquitetura e Urbanismo, que os Srs encontrarão muitos acadêmicos e estudiosos da questão urbana Paulistana que, com certeza dissetarão com mais responsabilidade e critério sobre os assuntos cotidianos de nossa querida São Paulo.

Enquanto não haja uma mudança de colunista ou da forma de abordar o conteúdo da coluna do Sr. Cesar, não serei mais leitora do Jornal Metro.

Obrigada pela atenção.
Arq. Heloisa Barbeiro

Prezada Heloisa, o projeto da Nova Luz, conforme desenhado pela Prefeitura, contempla habitações de baixa renda. Talvez classe média. Mas o bairro não será entregue aos ricos, como você parece acreditar. Apenas se transformará numa região habitável, porque neste momento não o é. Os moradores da região reclamam muito do estado em que o bairro se encontra. Sei disso porque mantenho contato com líderes de bairro, através da SubSé. Ficarão muito satisfeitos com as melhoras que o projeto trará. Sei muito bem que não serão resolvidos todos os problemas sociais concentrados na região. E parece que, por enquanto, não existem no horizonte soluções para resolvê-los. Apenas tentativas paliativas. Não tenho espaço em meia página de tablóide para ser profundo em nada. Sua própria carta não caberia naquele espaço, para você ter uma idéia. Com relação a morar longe do centro e ficar duas horas em condução, isso já acontece, na realidade, com a imensa maioria da população desta cidade. Não deixe de ler o Metro. O jornal é ótimo. Simplesmente, pule o meu artigo.

Cesar Giobbi

Caro Cesar,

Primeiramente gostaria de acrescentar que tentei ao máximo que meu depoimento não fosse um ataque pessoal. Acredito que pela minha paixão pelos assuntos da cidade, acabei sendo muito dura e por isso peço desculpas.
Acredito também que o Sr. não tenha espaço suficiente para escrever textos muito longos e por isso mesmo e pelo motivo do jornal Metro ser distribuido de forma gratuita pela cidade é que se torna necessário a atenção no que se escreve.

Seu artigo de hoje foi meramente publicitário da Nova Luz, quando é muito mais necessário expor os reais motivos para que aquilo está sendo feito e para quem. É mais importante mostra-nos como cidadões conscientes, principalmente no caso do Sr. que tem a liberdade de escrever o que deseja, ao invés de simplesmente relatar um fato com inclinações para determinados assuntos. Como foi o caso dos mais belos bairros de São Paulo que o Sr. só incluiu àqueles aonde a grande maioria moradora é de classe-social elevada e, em sua maioria, localizados no centro expandido da cidade. Ou seja, o Sr. mesmo acaba por dizer que os outros bairros compõe a parte considerada “feia” (leva a acreditar por que são compostos por pessoas mais pobres) e, o projeto da Nova Luz levará a qualidade da “beleza” para mais um bairro central.

Além disso é importante levar em consideração que o problema das drogas e prostituição não consegue ser resolvido com um projeto urbano e de arquitetura. É um assunto muito mais profundo e interdisciplinar, deve ser tratado pela saúde, psicologia, assistencia social, assistencia economica e habitacional, entre outros. O Projeto da Nova Luz, como o Sr. bem escreveu em seu artigo, fará uma “expulsão” dessas pessoas para outras regiões; simplismente higienista. Ainda na questão da habitação social, mesma que prevista no projeto (em quantidade desproporcional com o restante dos usos do solo) este projeto acabará formando uma bolha de expeculação imobiliária que elevará o preço da moradia na região, acabando por expulsar, mais uma vez, aquelas pessoas com menos renda.

Ao analisar o grande investimento da Companhia de Dança que será feito nesta área nos leva a pensar o porquê este dinheiro não foi investido em outros setores necessitários e em outras regiões da cidade que talvez estejam mais degradadas e sem opções culturais, como por exemplo, a periferia ou diversos bairros da Zona Leste. Penso, mais um vez, quem de fato usará estes espaços aonde os investimentos são enormes? Não acredito que não hajam horizontes para solucionar esses grandes problemas, acredito sim que eles estão sendo “resolvidos” de forma errada. Sou otimista e tento imaginar uma São Paulo mais justa e para todos e, infelizmente, o Nova Luz não parece atender esses requisistos.

Mesmo assim agradeço pela discussão.
Até mais.
Heloisa

Heloisa, sou um jornalista, não arquiteto, nem urbanista, nem sociólogo. Sou um cronista da cidade, tão otimista quanto você. E concordo com praticamente tudo o que você me escreve. Mas tenho visto exemplos de recuperação de áreas degradadas em outras cidades do mundo, e o bem que fazem para todo o entorno. Acho que o centro de São Paulo carece desta atenção e a merece tanto quanto a periferia. Uma cidade não pode ir largando para trás o que o mercado ou a administração pública acreditam que não sirva mais. O centro concentra nossa história. Enfim, sou um entusiasta do centro de São Paulo, mas compreendo e respeito as preocupações de alguém, como você, que se debruçou sobre estes problemas com muito mais profundidade. Abs
Cesar

Em tempo: parabéns pelo seu texto. Não é toda hora que recebo cartas tão bem escritas.

Cesar Giobbi

Olá Cesar,

No final das contas acho que essa discussão foi boa para nós dois.
Desculpe a dureza. Fico feliz que vc também seja um otimista incansável.
Até mais.
Heloisa

POR: HELO BARBEIRO

Para ter seu texto publicado no Boca no Trombone , envie seu texto para ensaiosfragmentados@gmail.com que ele será avaliado e se aprovado irá para o ar.

3 Respostas para “

  1. Desculpa, não teve corragem de leer tudo (não eh tão simples para min de leer todas essas coisas complicadas em portuges ehehehe), mas antes de tudo, tem que ver que realmente, o Jornal Metrô so esta distribuido nos lugares de pessoas da classe media e rica. Os pobre não lee jornais nem comprado, nem gratuito. As ideias que são publicadas são (em qualquer pais, mesmo na França) dos partidos de direito, partidos CAPITALISTAS. E o que pensam a maioria das pessoas que tem dinheiro em São Paulo??? Eles pensame e concordam com essas coisas que o cara falou.Você não acha que todas as pessoas que tavam no mesmo farol que você não concordam? Eu tenho certeza que sim, senão eles não ia votar para KASSAB.Tem que fala tb que não acho que qualquer coisa que o José Serra fez eh coisa boa. Porque não falar então que o minhocão fez de São Paulo uma cidades melhor?? Serio… Eh RIDICULO.Mas uma coisa. Eu não acho o centro de São Paulo feio. Não eh porque tem pobres e que os edificio são velho que uma coisa eh feia. Tem que sair da sua cultura pra ver que FAVELA EH LINDA (hehehhehe paravra de francesa neh). To falando em termo de ESTETICA é não de condições sociais (eu sei ateh demais que Favela não eh ideal de vida). Porque os brasileiros acham Paris sujo?? Porque eh velho (não são paravras minhas mas de um ethnologo MUITO famoso que se chama Levi Strausse que eu aconselho pra vces leer que so fala do Brasil!). Coisa velha não eh suja, não eh feia. A parte a mais linda da cidade (depois do Bexiga e das favelas ^^)eh O CENTRO!Em São Paulo (para não generalisar a todo o Brasil que eu não sei como pensa os outros), tem um mito que fala que VELHO=SUJO.No final, o que eh o projeto Nova Luz? Um novo Haussmann! Porque o Haussmann fez aquele projeto em Paris? Porque moravam pobres, num tessido urbano que o estado não controlava. Para os entões pretestos SANITARIO, ele destruiu tudo para construire avenidas enormes, monumentais, e colocar ricos no lugare dos Pobres e para criar essa cidade que todo mundo admira, fundada sobre uma ideia SEGREGISTA.Falou de novo: São Paulo eh uma ditadura dos 10% mais ricos com os 40% que concordam e contro os 50% que não entendem ou que tem coisas mais importante para se preocupar, como encontrar comida para seus filhos.Espero que fiquou comprehensivel… Acho que inventei bastantes paravras! hehe.. E desculpa pelo looooongo commentario mas, esse tipo de coisas me revoltam tanto que você Helo.Eu não sou brasilieira, não sou paulistana, não vivo na america do sud nem em qualquer pais em desenvolvimento, mas me sinto muito mais concernada para esse tipo de coisas que para a crise do Euro.

  2. Oi Cecile! Ça va? heheEntão na realidade o Jornal Metro tem uma grande distribuição, inclusive em metros e também por ser gratuito atinge diversos tipos de classes sociais. Mesmo assim, tomando por pressuposto que só atinja pessoas mais ricas, seria ainda mais importante que as matérias fossem escritas de forma responsável e verdadeira. É uma pena que a maior parte da elite brasileira esteja ligada a moda, fofocas, Caras e escandalos ao invés de estudar e entender sua realidade. Seria ainda mais importante, portanto, que a matéria feita no Jornal Metro esclarecesse tais pessoas sobre as reais intensões do Nova Luz para que elas parassem de pensar no próprio umbigo e olhassem ao redor.De qualquer maneira sei que vc se revolta tanto quanto eu, mas acho que ainda é mais dificil conviver diariamente com essas barbaridades! Querendo ou não ai no Velho Mundo as coisas são (na parte social) um pouco melhor resolvidas ou, pelo menos, existem mais pessoas esclarecidas! Mas é importante se revoltar e ser questionador, pelo menos queremos mudar o mundo e não permanecer na parvisse!Bjk

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