Habitação Social em Iquiqui (Chile) – Elemental

Foto do projeto recem entregue e depois de ampliado pelos moradores
O caso de Iquique é um exemplo muito interessante no que toca a questão da habitação para interesse social em áreas centrais. Isto por que esta cidade costeira, rodeada pelo deserto de Tarapacá e com arredores de áreas agrícolas possuía, a partir dos anos 60, um loteamento irregular que, ate então, estava na periferia da cidade, chamado de Quinta Monroy. (CANOTILHO, 2008)
Com o crescimento da urbe em direção as áreas agrícolas, a área do Quinta Monroy passou a fazer parte do setor central da cidade de Iquique. Contudo esta área ainda não usufruía de infra-estrutura e saneamento básico, ao mesmo tempo em que já se configurava como bairro consolidado. Na década de 90 as cem famílias moradoras não contavam com padrões de habitabilidade, vivendo em casas com condições precárias e um ambiente de conflito social. (id.ibid.)
Portanto, a partir de 1995 iniciou-se uma disputa territorial neste bairro já que de um lado estavam às famílias moradoras e do outro os donos das terras que desejavam os benefícios da especulação imobiliária do local. Por esse motivo a “Chile Barrio”, agencia governamental responsável pela intervenção e realojamento de população de baixa renda, comprou esta área com intenção de realojar a população moradora, sem segurança que fosse no mesmo local. (id.ibid.)
Neste contexto o programa governamental “Vivienda Social Dinamica Sin Deuda” atribuiu um subsidio de 7.500 dólares por família para a compra de um novo terreno, custo da infraestrutura e construção da unidade habitacional e, por esse motivo, o escritório Elemental, coordenado pelo arquiteto Alejandro Aravena, decidiu fazer a coordenação do financiamento e concepção e execução do projeto de arquitetura, por que, segundo Aravena:
“Havia um programa do governo já há uns 30 anos, chamado Chile Bairro, que não conseguia uma solução para o problema habitacional de Iquique, uma localidade ao norte da cidade. Pedimos para trabalhar lá, já que, com as opções existentes no mercado, acreditávamos não ter nada a perder.”(GRUNOW,2009)
Como primeira medida, o Elemental fez um levantamento socioeconômico da população de Quinta Monroy, abrangendo questões como composição e rendimento das famílias, alem de avaliação espacial e estrutural das casas existentes. Os resultados mostraram grandes disparidades, uma vez que 60% das famílias viviam no limite da pobreza, ao mesmo tempo em que suas habitações não reunião as condições
mínimas de salubridade, sem luz ou ventilação direta, sem acesso a rede de água potável ou saneamento e com habitações com áreas em media de 30 metros quadrados. (CANOTILHO, 2008)

Local aonde estavam as famílias.

Contudo, a área de Quinta Monroy estava muito bem localizada na cidade, próxima aos principais equipamentos e aos empregos e, por este motivo, passou como primeiro objetivo do Elemental a negociação para a permanecia de tais famílias nesta região, para que elas pudessem usufruir da infraestrutura da cidade. (id.ibid.) A implantação em lâmina pareceu a mais adequada para garantir a acomodação do maior numero de famílias, ao mesmo tempo em que garantiria melhor insolação e ventilação para todas.
Desta maneira, se transformou em uma questão de projeto garantir que o orçamento de 7500 dólares por família conseguisse fazer a compra do terreno central e a construção das unidades
habitacionais. Aravena explica isso da seguinte forma:
“…conseguíamos ter um conjunto de moradias com densidade suficientemente alta para pagar terrenos caros, bem localizados, e, ao mesmo tempo, permitíamos seu crescimento porque, no marco da política habitacional com que trabalhávamos, havia tão poucos recursos que era possível construir apenas metade das casas. O governo decidiu testar a proposta. Desde então, pudemos estender a idéia a outras cidades, mantendo as mesmas regras.” (GRUNOW,2009)
Por esse motivo, os calculo do custo total levaram o Elemental a poder propor unidades com somente 30 metros quadrados, o que já haviam constatado que não era adequado para atender as questões de conforto termo-acustico e de espaço para as famílias. Por isso, a solução foi pensar em unidades que pudessem ser expandida, através da autoconstrução dos moradores, que arcariam que este ônus. (CANOTILHO, 2008) Alem disso, a questão do adensamento do lote foi de grande importância, uma vez que com um maior adensamento viabilizaria a compra
do terreno ao mesmo tempo em que muito adensado poderia causar problemas de superpopulação, degradação do local. (id.ibid.)
Contudo, quando pensado na questão da expansão da unidade habitacional através da autoconstrução, foi necessário examinar as possibilidades dos locais aonde isso poderia ocorrer: se concebeu uma tipologia que combinava, simultaneamente, acréscimos verticais e horizontais, confi gurando um volume com 2 casas por lote, uma habitação unifamiliar no piso térreo sobreposta por outra habitação unifamiliar com 2 andares. (id.ibid.) Portanto os lotes possuem 9×9 metros com as unidades térreas com 6×6 metros com 2,5 de pé direito, o que deixa um quintal de 3×3 metros. A unidade de cima possui 6×6 metros com um pé direito de 5 metros, mas que só será construído metade, deixando a outra metade para a posterior expansão da unidade habitacional. Isto quer dizer que uma unidade habitacional que tem 30 m2, poderia ser aumentada e ficar com uma área total de 72 m2. (id.ibid.)

Esquema de ampliação do projeto.

Esta intenção de possibilidade de ampliação da unidade habitacional foi explicado por Aravena para a revista AU: “Percebemos que o tema moradia implicava a entrega de um lugar para que uma família não vivesse exposta a intempéries; a formalização da tendência de propriedade; a criação de uma maneira para financiar o acesso à moradia; e o desenvolvimento de um desenho que a tornasse melhor do que as não planejadas. Visualizamos a oportunidade de mudar a abordagem do problema, de criar um tipo de residência que, inserida na lógica da propriedade, fosse usada pela família como capital com valor crescente, integrada na rede econômica e social da cidade. Perguntamo-nos se era possível usar a casa como investimento mais do que como recurso social e acabamos por reformular a noção de qualidade. Ela seria, então, indicativa do aumento de valor da habitação ao longo do tempo. Passamos à identificação de um conjunto de condições de desenho que possibilitassem essa valorização, assim como dos mecanismos que permitissem a passagem dos subsídios públicos ao patrimônio das famílias mais pobres. Essa foi a seqüência do nosso trabalho e dacriação do Elemental.” (GRUNOW,2009)
Podemos perceber, portanto, que é possível manter habitações de interesse social em áreas centrais das cidades, através de vontade política que disponha de instrumentos e recursos financeiros para isso, e na formulação de um bom projeto arquitetônico, que não dará a tal população apenas um local para morar, mas também um investimento para a vida toda. Contudo, este projeto acabou transformando todo o terreno em uma área destinada, exclusivamente, para habitação social, que tende a se deteriorar mais facilmente do que áreas com mistura de usos e de segmentos sociais.
Seria importante, portanto, tentar aliar todas as questões: projetos de habitação social com qualidade em áreas centrais, próximo aoutros usos do solo e a projetos voltados para outros segmentossociais, para que assim o espaço não se torne um gueto aonde só viva população de baixa renda.

Fonte: BARBEIRO, Heloisa H. Adensamento Urbano Sustentável: Novas Habitações para a Luz.FAU-MACK, 2009 (Tese de Graduação).
CANOTILHO, Pedro. Habit: arquitetura e a problemática da Habitação.
Coimbra: FCTUC, 2008. (Tese de mestrado).
GRUNOW, Evelise. Alejandro Aravena. In: Projeto Design, Edição
347, 2009.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s