Kowloon Walled City

Creio que até para muitos urbanistas, inclusive aqueles acostumados a lidar com questões difíceis de habitações precárias e em áreas de risco, o caso de Kowloon é de espantar. Para mim foi um choque quando o estagiário Felipe Alves, querido e prodígio, veio me mostrar as fotos que tinha encontrado na internet sobre esse “lugar de ninguém”. De primeira olhada me interesse e mais ainda quando ele começou a explicar algumas coisas sobre o local, principalmente sobre a questão da densidade, que é o meu assunto favorito no momento.

As origens da cidadela remontam a meados do Século XIX, tendo o complexo se originado de uma fortificação militar, construída sobre as ruínas de um antigo posto de observação na Península de Kowloon. Com a invasão britânica e a cessão da ilha de Hong Kong aos ingleses em 1842, Kowloon funcionava como um local estratégico de observação chinesa na função de impedir mais tomadas de terras pelos ingleses. Em 1898, celebrou-se uma Convenção que cedeu outras porções do território chinês de Hong Kong para os ingleses, por 99 anos adicionais. A Convenção excluiu a Cidadela de Kowloon (então com população de cerca de 700 pessoas), que permaneceu no domínio da China, podendo esta manter tropas na península, desde que não interferissem nas atividades inglesas.

A Coroa inglesa logo desconsiderou esta parte do acordo, atacando Kowloon em 1899, mas encontrando-a completamente deserta. Nada foi feito com a Cidadela e a questão de sua propriedade foi deixada em segundo plano. Com a ocupação de Hong Kong em 1940, durante a Segunda Guerra Mundial, o Japão evacuou a Cidadela e a demoliu quase completamente (incluindo suas muralhas), para obter materiais de construção para obras militares.
Depois da rendição japonesa e com o estabelecimento definitivo do Comunismo Chinês, muitos refugiados foram se abrigar naquele espaço. A situação piorou já que nem a China e nem o Reino Unido queriam ter responsabilidade por Kowloon, o que fez com que se tornasse uma “cidade sem leis”.


Ao mesmo tempo que a cidadela não tinha uma pátria, o número de habitantes começou a crescer rapidamente, atingindo 35.000 habitantes que na década de 80. Os moradores passaram a construir tudo que necessitavam para cima do nível da rua, corredores labirínticos e muito e muito lixo, o que fez com que os edifícios crescessem tanto, fazendo com que os andares mais baixos não tivessem qualquer entrada de luz natural. No total foram construídos 500 edifícios de 12 a 14 andares numa área de aproximadamente 200×150 m.



Nada era construído por arquitetos, mas, segundo se noticiam, duas regras construtivas deviam ser seguidas: a eletricidade deveria ser instalada em todos os locais (para evitar incêndios) e os prédios poderiam ter, no máximo, 14 andares por estarem próximos ao aeroporto. Apenas oito canos de água eram providenciados pela prefeitura; o restante possivelmente vinha de poços internos, desconhecidos das autoridades.


Era uma pequena cidade aonde aconteciam situações que não poderiam ocorrer no restante da China, como cassinos, casas de ópio, bordéus, fábricas secretas, dentistas clandestinos e sem licenças etc. Até antes de seu desaparecimento, Kowloon chegou a ter uma população de 50.000 habitantes distribuídos em 0.026 km², o que gerava uma densidade populacional de 1.900.000 pessoas por km², atribuindo à cidadela o título de lugar mais denso do mundo.


Após uma decisão mútua por parte das autoridades chinesas e britânicas, em 1993, Kowloon Walled City (como era conhecida) foi demolida por razões sanitárias e transformaram o local em um parque. Hoje, a antiga Walled City, que fica na parte norte da Península de Kowloon já está integrada ao restante da cidade e, junto com a ilha de Hong Kong, possui 48% da população de Hong Kong, mas não se encontrou informações sobre o local de tranferência dos antigos moradores da “Cidade Proíbida”.
O parque ficou conhecido como Kowloon Walled City Park e o projeto do parque foi inspirado no estilo do jardim de Jiangnan da dinastia de Qing. A construção começou em maio 1994, com uma mão-de-obra de artesões locais para assegurar a reprodução exata do conceito clássico. O parque cobre 31.000 m² é dividido em oito zonas, com características individuais mas que se misturam no projeto total. Foi construído a custo de $76 milhões e aberto oficialmente dezembro de 1995.

Atualmente a Península de Kowloon está passando por um processo de renovação urbana, que futuramente será postado aqui no Ensaios Fragmentados.

Agradecimento: Felipe Alves – estudante, estagiário e arquiteto prodígio!Fonte:http://www.archidose.org/KWC/

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