Olharam para a natureza


“Assim como a maioria das cidades norte-americanas, Nova Iorque tinha um problema: a infra-estrutura ferroviária abandonada depois que as mercadorias passaram a ser transportadas por caminhões. O que fazer com essas marcas do passado? Acho que em São Paulo o pessoal iria propor passar asfalto em cima de tudo aquilo. Mas a solução encontrada para um trecho elevado de ferrovia foi tão inovadora, que a cidade se tornou referência para projetos urbanos ao ar livre.

A mutação da linha férrea elevada em um parque linear não surgiu da cabeça de algum iluminado político ou de um seleto grupo de arquitetos. A principal força que comandou a transformação da linha férrea em um parque veio do engajamento de moradores, que queriam manter a história do bairro e ao mesmo tempo utilizar aquela infraestrutura abandonada. Mas como eles acordaram para esse tema? Como, lá em Nova Iorque, os moradores se mobilizaram em torno um projeto para o bem-estar na cidade?

Lá, enquanto os trilhos enferrujavam e as estruturas de concreto envelheciam, a grama e as flores conquistavam progressivamente a paisagem. Logo vieram também os pássaros e os insetos. Algumas pessoas perceberam essa reconquista do espaço urbano pela natureza. Esta é a beleza e o diferencial da história toda: sim, algumas pessoas voltaram seus olhos para a natureza e se deixaram levar por ela. Foi esse processo que inspirou tanto a luta dos moradores como o projeto urbanístico elaborado pelo escritório que venceu o concurso para a criação de um parque linear, o High Line Park.

Com o objetivo de transformar a linha em um espaço público em Nova York, a associação de amigos da High Line foi fundada dez anos antes da inauguração do primeiro trecho do parque linear. O esforço dos moradores afastou o risco de demolição. Por outro lado, diversos projetos de reativação da linha como eixo de transporte fracassaram.

Hoje em dia, a associação administra o parque e organiza atividades para pessoas das mais diversas faixas etárias ao longo dos 2,3 quilômetros do parque linear. Aliás, um percurso pelo parque mostra que ele não é uma área homogênea. O parque é composto por diversas micropaisagens, marcadas por diferentes tipos de espécies vegetais – enfim, também do ponto de vista paisagístico, o High Line é bastante interessante. Também por isso, o parque inspira projetos semelhantes nos Estados Unidos e em outros países do mundo.

No entanto, a importância do parque vai muito além de ampliar as áreas verdes da cidade. Levando em conta a centenária estrutura de galerias de águas da cidade – cuja modernização custaria algo como 7 bilhões de dólares – o parque é um marco importante para a progressiva ampliação da porção permeável do solo urbano. Seguindo o modelo do High Lane, também está planejado o esverdeamento dos telhados de edifícios no centro da cidade.

PS: Cidadãos brasileiros que gostam de parque deveriam olhar mais para exemplos como esse do que se envolver em polêmicas como a proibição ou não do banho de sol de biquíni em dias ensolarados, não é mesmo? Na Alemanha, que está longe de ser o país do carnaval, creio que gente com esse tipo de preocupação mal teria espaço em uma sociedade que até tolera a nudez em suas áreas verdes.

Foto: Antiga linha para o tranporte de cargas em Nova Iorque se transforma em um parque linear (Joel Sternfeld)”

Matéria publicada dia 28 de Outubro de 2010 no Blog do Planeta Sustentável.

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