O PIB não mede os resultados em termos de qualidade de vida da população – Ladislau Dowbor

entrevista para REVISTA IHU Online
Por: Graziela Wolfart e Patricia Fachin , 01/06/2009

Ladislau Dowbor acredita que quanto mais dinheiro for para a base da sociedade, em termos de proteger o país dos impactos da crise, melhor será. Para ele, o movimento que se gerou nos últimos anos, de promover mais consumo na base da sociedade, é o que está protegendo o Brasil da crise.

“Os limites do nosso consumo e essa guinada para um consumo mais inteligente e que possa ser sustentável é algo que está colocado hoje na agenda como um dos maiores desafios a ser enfrentado.” A opinião é do economista Ladislau Dowbor. Em entrevista concedida por telefone para a IHU On-Line, ele explica por que não é possível conciliar a sustentabilidade do planeta com a economia: “Quando olhamos para esse nosso pequeno planeta, percebemos que a natureza funciona em sistema circular (…), com a reutilização dos diversos recursos existentes. A vida está baseada nisso. O sistema econômico que nós montamos não é circular, de reciclagem, e sim um sistema linear. Pegamos recursos naturais, transformando-os em uma indústria, consumimos, e jogamos no lixo sob a forma de plástico. Com isso, estamos acabando com o petróleo no planeta. E não estamos recolocando de volta as bases energéticas utilizadas”. Ele argumenta também que a economia que temos hoje, “em termos de destruição da água, da vida nos mares, destruição da biodiversidade, do solo, provocadora de aquecimento global e estimuladora de um consumo absolutamente idiota em termos de desperdício, já era”, afirmando a necessidade de pensarmos em uma nova economia.

Economista e professor no PPG em Administração da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), Ladislau Dowbor é formado em Economia Política, pela Universidade de Lausanne, Suíça, e doutor em Ciências Econômicas, pela Escola Central de Planejamento e Estatística de Varsóvia, Polônia. Seu livro mais recente é Democracia Econômica – Alternativas de gestão social (Petrópolis: Vozes, 2008).

IHU On-Line – Quais os principais limites e entraves para a efetivação do consumo ético de forma coletiva pela sociedade?

Ladislau Dowbor – Em primeiro lugar, nós não precisamos necessariamente reduzir o consumo. Se dividirmos o PIB do mundo, que são 60 trilhões de dólares, pela população mundial, que é 6,7 bilhões de pessoas, dá aproximadamente R$ 5 mil por família de quatro pessoas, por mês. Isso é importante, porque significa que, se o que o planeta produz hoje fosse distribuído de maneira minimamente justa, daria para todo mundo viver de maneira digna e confortável. Segundo ponto: os Estados Unidos, com 4% da população mundial, consomem 25% da energia do planeta. Se adotarmos uma forma de consumo tipo norte-americana, precisaríamos já hoje de mais quatro planetas, mesmo não havendo aumento da população. Isso sem falar dos impactos sobre o clima, como o aquecimento global e as diversas catástrofes que ele está gerando. Precisamos encontrar um meio termo, entre a ideia de que todos teremos de apertar bem os cintos, e simplesmente o consumo baseado no desperdício e na destruição dos recursos do planeta. O que estamos constatando hoje é que esse nosso planeta é relativamente pequeno; tem 6,7 bilhões de habitantes; a cada ano são 76 milhões a mais, e não há como pensarmos que é possível expandir para sempre o consumo das pessoas num planeta que é limitado. Há um ditado entre os economistas que diz o seguinte: “Acreditar que podemos expandir o consumo de recursos naturais para sempre num planeta que é limitado é algo que só pode ser pensado por um idiota ou por um economista”. Os limites do nosso consumo e essa guinada para um consumo mais inteligente e que possa ser sustentável é algo que está colocado hoje na agenda como um dos maiores desafios a ser enfrentado.

IHU On-Line – Pela lógica ecológica, a economia está fazendo a conta inversa. Como, nesse sentido, a economia e os atuais parâmetros de crescimento econômico de um país deveriam se adequar para responder a demandas mais complexas, como a questão ambiental e o bem- estar social a longo prazo?

Ladislau Dowbor – Quando olhamos para esse nosso pequeno planeta, percebemos que a natureza funciona em sistema circular. Os pássaros comem as frutas e espalham as sementes; as folhas que caem são incorporadas ao solo que, por sua vez, se torna fértil e permite o surgimento de outras plantas, ou seja, todo o sistema da natureza é circular, de reutilização dos diversos recursos existentes. A vida está baseada nisso. O sistema econômico que nós montamos não é circular, de reciclagem, e sim um sistema linear. Pegamos recursos naturais, transformando-os em uma indústria, consumimos, e jogamos no lixo sob a forma de plástico. Com isso, estamos acabando com o petróleo no planeta. E não estamos recolocando de volta as bases energéticas utilizadas. O petróleo se acumulou durante centenas de milhões de anos, e nós teremos acabado com ele em 200 anos. A conta que fazemos deste processo é o PIB, o Produto Interno Bruto. Ele é bruto porque não calculamos a reposição desses processos. O PIB não mede os resultados em termos de qualidade de vida da população. Ele mede o fluxo desse processo linear da rapidez com a qual estamos utilizando os recursos. Quando, por exemplo, jogamos dejetos em rios e depois somos obrigados a contratar equipes para fazer a limpeza desses rios, estamos aumentando o PIB, porque aumentamos o fluxo do uso de recursos. Mas quando pegamos a Pastoral da Criança, que por medidas preventivas, sem gastar medicamentos ou com hospitalização, reduz a mortalidade das crianças, percebemos que ela não está apenas não aumentando o PIB, mas está reduzindo-o, porque reduziu o gasto com medicamentos, hospitalizações, o uso de ambulâncias e o petróleo e a gasolina que o veículo usaria. Fica parecendo que quando o PIB aumenta é bom, que usar mais recursos também é, quando, na verdade, estamos gastando os recursos do planeta. Essa mudança de pararmos de medir a velocidade com que consumimos os recursos e começar a medir quais são os resultados, ou seja, se as pessoas estão com mais saúde, se estão com mais acesso à educação, se estamos consumindo de maneira mais inteligente, é uma nova contabilidade que está surgindo. O que queremos é maximizar a qualidade de vida, queremos que as pessoas vivam de maneira feliz sem destruir o planeta.

IHU On-Line – De que maneira podemos projetar o crescimento econômico do país sem prejudicar o meio ambiente e as nossas vidas? É possível manter um equilíbrio entre economia, meio ambiente e bem estar social?

Ladislau Dowbor – Esse é o eixo central, o tripé que nos mostra que devemos ser economicamente viáveis, mas também socialmente justos e ambientalmente sustentáveis. Isso implica num conjunto de revisões do modo como nos organizamos. Sabemos o que precisamos fazer. Nas duas últimas décadas, foi fechado o horizonte estatístico do planeta. Sabemos o que está acontecendo com a água, com o petróleo, com as espécies vivas, com a destruição do solo etc. Em termos de responsabilidade, teremos de repensar o paradigma energético e produtivo do planeta. As grandes corporações precisam mudar seu sistema. O massacre publicitário que fazem os cartões de crédito, que dizem “a vida é agora, consuma, compre”, é uma coisa profundamente idiota. Um ponto muito importante é a participação das pessoas. Cada um pode, desde já, começar a se comportar de maneira ambientalmente sustentável. Nós produzimos em média, por pessoa, no Brasil, um quilo de lixo por dia. A metade disso é só embalagem: plástico, caixinhas etc. Cada pessoa pode ter um comportamento inteligente. No entanto, essa dimensão tem limites. Uma cidade como São Paulo fez grandes investimentos para o transporte de carros e não investiu em transporte coletivo. Isso é muito burro. As ruas estão cheias e todo o ano morrem em São Paulo cerca de seis mil pessoas com doenças respiratórias, ligadas ao enxofre, presente no combustível. Para ter um comportamento individual inteligente, eu gostaria de ter um transporte coletivo. Alguns comportamentos individuais dependem de infraestruturas sociais.

IHU On-Line – O senhor acredita que a partir desse processo de caos econômico e desgaste ambiental pode surgir uma nova economia?

Ladislau Dowbor – Este ponto é essencial. Temos hoje inúmeros centros no mundo que estão justamente pesquisando uma nova economia. A que temos hoje, em termos de destruição da água, da vida nos mares, destruição da biodiversidade, do solo, provocadora de aquecimento global e estimuladora de um consumo absolutamente idiota em termos de desperdício, já era! Com a crise financeira planetária, estamos entrando hoje no terceiro milênio. Os grandes problemas estão sendo colocados. Temos uma economia que é destrutiva em termos ambientais e é injusta em termos sociais. Hoje os bancos estão falindo e dizemos “estamos em crise”. Mas, quando morrem todos os anos dez milhões de criança por causas ridículas, como não ter acesso à água limpa, isso não é crise? Já morreram 25 milhões de pessoas de Aids, e as empresas farmacêuticas não estão investindo nas grandes doenças que ameaçam a humanidade, mas em remédios para as doenças degenerativas dos idosos dos países ricos, porque é ali que está o grande dinheiro. Esse é o lado crítico. No lado construtivo temos também um movimento que estamos criando, que se chama “Crise e Oportunidade”. Estamos trabalhando com grandes eixos de transformação necessários.

IHU On-Line – Então, o senhor acredita que a crise internacional possibilita pensar em uma reformulação da estrutura econômica?

Ladislau Dowbor – Exatamente. Enquanto os muito ricos estavam ganhando rios de dinheiro com especulação financeira, nos diziam: “Vocês é que não estão sabendo ser espertos, por isso é que estão descontentes; mas nós estamos ganhando muito dinheiro e a coisa está bem”. Agora que eles estão em crise, de repente estão começando a ouvir certas coisas. A crise financeira permite recolocar na mesa o conjunto da crise, que não envolve apenas o aspecto financeiro, mas também a destruição ambiental e a dramática desigualdade que se gerou no planeta. É preciso pegar esse dinheiro que está indo para os sistemas especulativos e reconvertê-lo para o seu uso necessário. É o que chamamos de economia de locação racional de recursos. Em vez de aplicar recursos financeiros no sistema especulativo, ou agir como os bancos brasileiros, por exemplo, que compram títulos do governo para serem remunerados pelo mesmo governo pela taxa Selic, é preciso que se passe efetivamente a financiar as atividades de inclusão produtiva e de reorientação ambiental que o planeta precisa.

IHU On-Line – A partir de uma nova economia, é possível pensar em um “capitalismo consciente”?

Ladislau Dowbor – Tenho cada vez mais dúvidas se isso aqui que estamos falando é propriamente “capitalismo”. Porque o capitalismo, como o conhecemos hoje, não se orienta por mecanismos de mercado – quando, sem pressões políticas, umas empresas concorrem com as outras. Isso é legal e existia muito antes do capitalismo. A concorrência é algo positivo. O que temos hoje é o poder corporativo que se apropria do poder político. Não basta mostrar que é evidente a fórmula de responder simultaneamente a um equilíbrio social, ambiental e econômico, porque os velhos grupos que ganharam muito dinheiro com o sistema anterior simplesmente não querem que mude. É muito importante ter consciência da resistência que existe para essa mudança.
Em termos econômicos, é importante lembrar que, quanto mais dinheiro for para a base da sociedade, em termos de proteger o país dos impactos da crise, melhor será. O conjunto dos processos como Bolsa Família, aumento do salário mínimo, aumento do financiamento do Pronaf, o ProUni, todo esse movimento que se gerou nos últimos anos, de promover mais dinâmica de consumo na base da sociedade, é o que está nos protegendo. Enquanto o dinheiro que vai para os mais ricos tende a se transformar em sistemas especulativos, nosso bom senso deve ser de investir na base da sociedade. No caso brasileiro, é importante entender que a crise financeira reduziu fortemente o espaço dos mercados internacionais. Mas, se no Brasil aumentamos o consumo interno, há uma possibilidade do setor exportador se reconverter para o consumo interno, e isso é um dos impactos indiretos da redistribuição de renda.

Fonte:Dowbor.org

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