Mobilidade urbana e o Transito – conceitos e abordagens

A Cartilha de Mobilidade Urbana, organizada pelo Ministério das Cidades, define mobilidade urbana como atributo das cidades no que se refere à facilidade de deslocamento de pessoas e bens dentro do espaço urbano. Não longe de tal definição, Vasconcellos (2005) traz que a mobilidade urbana é a liberdade de deslocamentos de pessoas e bens a todas as atividades essenciais das cidades.

A necessidade de deslocamento é uma coisa natural e espontânea de todo ser humano. Os motivos que geram os deslocamentos podem variar: trabalho, lazer, educação, saúde, compras etc. e se concretizam por vários modos de transporte. (ANTP, 1997, p.92) Assim, a idade, renda, escolaridade e o gênero são fatores pessoais e que geram diferentes formas de deslocamentos (VASCONCELLOS, 2005, p.12).

A quantidade de deslocamentos humanos e a sua variação estão ligados as características das pessoas e dos seus núcleos familiares.” (ANTP, 1997, p.92) Ou seja, de acordo com os fatores pessoais, o índice de mobilidade varia, demonstrando que no Brasil, o tema “mobilidade urbana” ainda não é tratado de forma relevante. Isto faz com que cada segmento social dependa de suas próprias disponibilidades, o que mostra que a acessibilidade ainda não é para todos. (FREITAS, 2003, p.27)

As pessoas na idade produtiva (de ir à escola e trabalhar) são as que mais saem de casa. Já a renda interfere nos recursos disponíveis pela família/pessoa para pagar os meios de transporte, ou seja, pessoas com menos renda tem menos disponibilidade de pagar pelo deslocamento e, portanto, deslocam-se menos. A escolaridade influencia a mobilidade por que as pessoas com maior nível escolar, produzem mais atividade fora de suas casas e o gênero afeta a mobilidade por que existe, em cada sociedade, uma divisão de tarefas entre os sexos. (VASCONCELLOS, 2005, p.12)

As formas como as pessoas se deslocam no território demonstra como as funções urbanas são distribuídas pelo mesmo. (FREITAS, 2003, p.28) A distribuição física da cidade, a rede de vias e meios de transporte disponíveis para as pessoas são fatores que geram deslocamentos, já que uma rede muito extensa é vencida mais facilmente por pessoas que possuem automóveis ou a limitação na oferta de transporte publico impossibilita muitas pessoas de chegarem aos locais desejados. (ANTP, 1997, p.92)

Para que seja possível o deslocamento terrestre pode-se utilizar de diversas formas de transporte: a pé, bicicletas, motocicletas, automóveis, ônibus, trem e metro e estudar a relação existente entre os modos de locomoção determina as vantagens e desvantagens que cada um tem dentro de cada sociedade. Além disso, conhecendo as características de cada meio de transporte existente, é possível desenvolver novas tecnologias para suprir a carência que existe e promover um melhor sistema de transporte de pessoas e bens. (ECTP, 2003, p.5)

Vasconcellos (op. cit.) aponta que a primeira classificação dos transportes se dá pela sua esfera de atuação: pública ou privada. A primeira está à disposição do público mediante pagamento e sempre está submetido a algum tipo de controle governamental. A segunda é utilizada apenas pelo proprietário ou por quem ele permita e está submetido a regras gerais do código de transito. Entretanto podem-se comparar os meios de transporte levando em consideração as suas capacidades variadas: número de pessoas que cabem dentro do veículo (capacidade física) ou o número de pessoas que podem ser transportadas por vários veículos em uma hora, em determinada via (capacidade dinâmica). (VASCONCELLOS, ibid., p. 58). É possível ver essa relação na imagem abaixo:

A motocicleta e a bicicleta são os veículos com menor capacidade física, já que comportam uma ou duas pessoas no máximo. O próximo veículo é o automóvel, que comporta 5 a 9 passageiros (dependendo do modelo). Em seguida vêm os microônibus, que comportam 12 a 25 pessoas sentadas e os ônibus comuns que levam aproximadamente 45 pessoas sentadas e um total de 80 pessoas. Os ônibus articulados (dois corpos) e os biarticulados (três corpos) levam de 65 a 80 sentadas e 160 a 220 no total. Finalmente surgem os veículos metros-ferroviários. Cada carro deles comportam cerca de 70 pessoas sentadas e 260 no total e eles possuem até seis vagões, levando até 1500 pessoas. (VASCONCELLOS, ibid., p. 58).

Contudo, apesar do carro ter a capacidade de 5 até 9 passageiros, suas dimensões médias são de aproximadamente de 1 metro e 70 centímetros de frente por 3 metros de comprimento e, em São Paulo, os mesmos transportam, em média, 1,3 pessoas por viagem enquanto os ônibus levam cerca de 80 pessoas ocupando um espaço de 12 metros de comprimento por 2 metros e 60 centímetros de largura. Ou seja, 4 carros enfileirados levam aproximadamente 8 pessoas ocupando o mesmo espaço físico de um ônibus que leva 80 pessoas; 10 vezes mais.

Apesar de o automóvel levar um número menor de pessoas, ele se torna mais cômodo já que ele liberta o individuo dos constrangimentos sociais que existem no transporte público, como cumprir horários e conviver com outros cidadãos. (op. cit.) Além disso, o transporte público tem a necessidade intrínseca e indispensável do serviço de fazer paradas nos pontos, o que é mais uma desvantagem a favor dos veículos individuais. (VASCONCELLOS, 2005, p. 58).

Desenvolver estratégias para a criação de novas formas de transito e transporte em contraposição ao incremento do transporte individual e as facilidades que surgem com ele é dever de uma política de mobilidade urbana eficaz. Caso contrário, o automóvel desenvolverá maneiras inadequadas e ineficientes para driblar o congestionamento e a falta de espaço. Ou seja, é necessário dar as pessoas à chance de escolher por formas mais eficientes para se deslocar sem que dependam tão fortemente do uso do veículo individual. (LITMAN, 2003)

A estruturação do transporte público e sua articulação com a habitação é uma das soluções plausíveis que qualquer política de mobilidade urbana deve trazer, visando melhorar a qualidade de vida nas cidades. (FREITAS, 2003, p. 27) Além disso, esta política deve estabelecer regras e indicar formas de financiamento para garantir os direitos dos usuários e planejar e oferecer um transporte público de qualidade. (MC-SNTMU, 2005b)

Entretanto é impossível pensar em mobilidade urbana sem pensar nas ruas, calçadas e ciclovias, já que são por elas que as pessoas fazem à maioria dos seus deslocamentos. Tornam-se, assim, as estruturas mais vitais das cidades, bem como disse Jane Jacobs (2000). Se estas se apresentam de forma interessante para seus usuários, a cidade parecerá interessante, caso o contrário, se são monótonas, a cidade parecerá monótona e as pessoas não terão vontade de caminhar por elas.

Já trazendo conceitos de mobilidade urbana sustentável, andar a pé e/ou de bicicletas também traz muitas vantagens à saúde e a recreação das pessoas, já que aumenta a atividade física. Também melhora a condição ambiental e a economia, por que previne acidentes. Ainda diminuem o congestionamento, os custos com estacionamento e reduz o espraiamento das cidades, como demonstra o estudo feito por Todd Litman para o Victoria Transport Police Institute. (LITMAN, 2003)

Mobilidade sustentável é a maneira dos seres humanos se deslocarem sem que afetem o meio ambiente. Segundo o Estatuto da Mobilidade Urbana (CEDI, 2005), mobilidade urbana sustentável é o resultado de um conjunto integrado de políticas públicas no espaço urbano que assegura a todos os cidadãos o acesso amplo e democrático à cidade, suas oportunidades, serviços e equipamentos essenciais, de maneira eficaz, eficiente e sustentável.

Isso demonstra a grande relevância na aplicação de políticas de mobilidade urbana sustentável, já que elas trazem o equilíbrio entre os diferentes modos de transporte, priorizam os não motorizados, o uso adequado dos recursos energéticos, o adensamento das cidades para que as pessoas não necessitem se deslocar muito e para muito longe, a promoção de novas tecnologias e a integração eficiente do transporte ao uso do solo. (COSTA, 2003, p.36)

Mobilidade é, portanto, indispensável na visão econômica e social e atualmente é a chave para oferecer acesso aos empregos, comércio, serviço, habitação, educação, cultura e lazer. (ASCHER, 2003, p.23) Seu estudo se torna mais relevante, ainda, para as cidades de países em desenvolvimento por que estas possuem grandes problemas de congestionamento, falta de oportunidade de transporte e diferenças no índice de mobilidade de sua população.

Abaixo um vídeo do economista Ladislau Dowbor explicando como os conceitos e abordagens da mobilidade urbana e das opções de meio de transporte em São Paulo afetam a vida dos cidadãos e da cidade como um todo.

Ladislau Dowbor from Coletivo Garapa on Vimeo.

Fonte: Barbeiro, Heloisa H. ABORDAGENS RECENTES DA MOBILIDADE URBANA NA CIDADE DE SÃO PAULO. São Paulo, FAUMACK-2007. (parte do texto de iniciação científica de Helo Barbeiro)

Fonte vídeo: Vimeo

3 Respostas para “Mobilidade urbana e o Transito – conceitos e abordagens

  1. Parabéns a Ladislau Dowbor pela verdadeira aula de mobilidade urbana. Precisamos de governantes com esta visão, inteligência e capacidade para investir o dinheiro público da forma correta!!!Belíssima matéria…Luis Carlos Luz – Rio Claro-SP

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