Errante – Héctor Zamora

Tradução do texto de Guilherme Wisnik

Ano: 2010
Exposição: Margem pelo Itaú Cultural
Local: Rio Tamanduateí – São Paulo – Brasil

Errante, uma obra de arte do mexicano Héctor Zamora, localizada na Avenida do Estado, em frente ao Mercado Municipal de São Paulo, foi o primeiro resultado da Margem Project, criado pelo Itaú Cultural. A intervenção consiste na elevação de um conjunto de árvores de grande porte em uma área de 400 metros, no leito do rio Tamanduateí. As árvores são apoiadas por um quadro de ferro e cabos de aço, criando um jardim suspenso e surreal na área ao redor do Parque D. Pedro II.
Suspensão é realmente a palavra chave para descrever esta obra, apontando tanto para a sua realidade física e metafórica: a epifania do outro latente, a cidade fantasmagórica que parece emergir e subir sobre a cidade real. O conteúdo poético, paradoxalmente, é delicado e agressivo, ao mesmo tempo. Por um lado, a intervenção está posta de forma onírica em um parque linear, em um terreno que não existe, em uma referência ao sacrifício dos espaços naturais e espaços de lazer, por uma cidade que tem atingido a “barganha faustiana” para a modernização das indústrias e estradas. Por outro lado, a obra reproduz as operações de artificialidade energética e improvisação de uma cidade que está constantemente pulando sobre as suas dificuldades ao invés de tentar resolvê-los – como exemplificado pelo tamanho cada vez maior da frota de helicópteros em resposta ao tráfego urbano e a violência.

Junto com o riacho do Anhangabaú, o Tamanduateí é um rio que propiciou o início de São Paulo. O rio foi retificado e canalizado na década de 1920, quando o Parque D. Pedro II foi construído, e, progressivamente, desapareceram da vista das pessoas, escondido por vias expressas, vedações, sistemas de esgoto e rampas de saída. Várzea do Carmo, a porta de acesso à Zona Leste, a parte oriental da cidade, e a tradicional área de comércio de cereais em São Paulo, é hoje uma área de baixo custo, cheio de conflitos e repleto de informações, marcado pelo comércio informal e moradores de rua e da história traumática recente de desocupação e demolição (em curso) dos edifícios São Vito e Mercúrio – que se impõe como mais uma mudança na paisagem.

Ao escolher este local para sediar o Projeto Margem, em São Paulo, procuramos uma abordagem crítica a esta confluência de relações. Se por um lado, o espaço urbano nas margens dos rios Tamanduateí estava sujeita à desertificação, temos de admitir que ainda é um espaço de vitalidade máxima na cidade dinâmica e excludente transformada em uma metrópole.

A paisagem errante de Zamora passa por críticas sociais e ambientais, mas não apresenta uma solução para o pesadelo urbano. Muito pelo contrário, é um verdadeiro “tour de force“, que pode ser visto tanto como um Jardim do Éden em um local inadequado e como um híbrido, mutante da natureza, imobilizada em uma teia de aranha.

Fonte: www.lsd.com.mx (site do artista mexicano Héctor Zamora)

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s