Dois textos sobre a nova Bogotá

1º Texto: “A nova Bogotá enfrenta crime e caos no trânsito”
Modernização da capital da Colômbia levou à criação de tantos projetos imobiliários na última década que ela parece estar entrando em colapso
08 de maio de 2011
Por Simon Romero, do The New York Times – O Estado de S.Paulo

 

Jose Miguel Gomez/Reuters–29/9/2009
Inspiração. TransMilenio circula por uma avenida de Bogotá
Bogotá emergiu como a Meca dos urbanistas na última década. Prefeitos de mente aberta iniciaram uma “renascença” criando um sistema de tráfego rápido e pouco poluente e contando com a ajuda de mímicos nos cruzamentos para caçoar de infratores de trânsito.  
Mas os feitos que deram a Bogotá fãs pelo mundo estão sendo ocultados por uma atrocidade. Foram tantos projetos imobiliários colocados em prática ao mesmo tempo que a cidade enfrentou meses de caos no trânsito. Além disso, um escândalo de corrupção resultou na suspensão do prefeito Samuel Moreno na semana passada.
Para complicar a situação, o medo da violência voltou a se espalhar. Ainda que Bogotá continue mais segura do que era antes de sua ressurreição – quando era vítima de sequestros e atentados a bomba de traficantes – notícias de assassinatos e assaltos a moradores e turistas voltaram a assustar a cidade.
Grande parte da ira é destinada à deterioração do carro-chefe do sistema de transporte público da capital colombiana, o TransMilenio. Esse ônibus de superfície é tão admirado que inspirou projetos similares no restante da América Latina e em outros países em desenvolvimento na África e na Ásia.
De certo modo, o TransMilenio tornou-se uma vítima de sua popularidade: as filas são longas, os ônibus, lotados, e a construção de novas linhas está atrasada. Além disso, transformou-se também em um foco de roubos e protestos violentos.
Em fevereiro, o diretor da Polícia Nacional colombiana, Óscar Naranjo, anunciou que 350 policiais patrulhariam o TransMilenio para combater o crime nas linhas. “Por causa de todos os problemas com a expansão do TransMilenio, parece que a cidade está entrando em colapso”, disse a colombiana Clara Castillo, de 53 anos. Desde o ano passado ela está com o carro preso na garagem, pois uma construção fechou o acesso à rua dela. “Imagine voltar para casa um dia e encontrá-la bloqueada sem aviso? É insultante.”
2º Texto: “Nenhuma experiência urbanística se sustenta sem uma boa gestão: veja Bogotá”
11 de maio de 2011

Por Raquel Rolnik, Blog da Raquel Rolnik
Vira e mexe, alguma experiência urbanística vira a referência do momento. Foi-se o tempo de Curitiba. Barcelona teve seus dias de glória. A bola da vez, até pouco tempo, era Bogotá.
Matéria publicada no portal do Estadão, domingo passado, mostra como a cidade vem enfrentando problemas de trânsito, violência e corrupção na gestão municipal, desconstituindo aquilo que a havia notabilizado.
O fato é que algumas experiências concretas de intervenção urbanística acabam se transformando em produtos de exportação e gerando um enorme marketing.
Com isso, essas experiências acabam se descarnando, no sentido de que, quando se transformam em um produto de marketing, elas perdem totalmente a relação e a inserção que tinham com todo o processo que as gerou e se tornam uma espécie de coisa em si.
O mundo real das cidades é feito de propostas inovadoras e de “sacadas” urbanísticas, mas não só. Ele é principalmente feito de um dia-a-dia, de um cotidiano com uma qualidade de gestão capaz de manter as coisas e de transformá-las na medida da exigência das necessidades diárias.
Infelizmente, essa capacidade de gestão não gera marketing, não cria uma imagem de cidade e de governante que depois satisfaça egos e bolsos que vendem essas soluções para outros lugares. Esse exemplo de Bogotá é muito emblemático.
Por conta do projeto do TransMilenio e das intervenções nas suas periferias, Bogotá virou a miss universo do urbanismo. Propostas de reprodução das obras que ali foram feitas se espalharam pelo mundo.
Entretanto, a parte não contada da história de Bogotá foi todo o processo anterior, intangível, imaterial, de reconstrução de um tecido cidadão, de transformação na esfera política que foi justamente o que se perdeu hoje.

Fontes: www.estadao.com.br
             http://raquelrolnik.wordpress.com/

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