O que se esconde embaixo da Avenida Paulista?

O lugar é silencioso: só se ouve o toque-toque que vem de cima, dos saltos das mulheres. É escuro. Não há entrada de luz solar nem iluminação elétrica. Parte do chão está molhada de água de esgoto. Sombrio, o cenário gigante e desconhecido fica no endereço mais famoso da cidade, mas ninguém vê.

Trata-se de uma galeria de 2.000 m² localizada exatamente embaixo da calçada do Conjunto Nacional, na avenida Paulista. Para entrar, só pelo bueiro que sai do jardim do edifício. Foi por lá que a reportagem teve acesso ao local, no dia 13 de agosto. Uma área com entrada restrita e onde é indispensável o acompanhamento de uma equipe de segurança. À luz de três lanternas, foram três horas de exploração.

São dois andares de subsolo, com 120 m de extensão, 8,7 m de largura e 4 m de pé-direito cada um. A construção ocupa o quarteirão inteiro do Conjunto Nacional: estende-se da esquina da rua Augusta até a Padre João Manuel. E não está sozinha. Essa é apenas uma das 22 galerias que existem em toda a extensão da avenida-símbolo da cidade.

Esses espaços eram, até o fim da década de 1960, propriedade privada. Naquela época, a prefeitura decidiu alargar a Paulista e, para isso, desapropriou 10 m de cada lado da avenida. Resultado: na parte de cima, a Paulista ficou 20 m mais ampla e, no subsolo, o que antes era garagem dos prédios tornou-se também espaço público.

Ali, no Conjunto Nacional, esse espaço público não recebe manutenção constante. É preciso usar botas para não molhar os pés com a água que escorre da tubulação, com um cheiro que beira o insuportável. No teto, o calcário cria gotas que, ao caírem no chão, formam “esculturas” que se amontoam. Quatro banheiros resistem à degradação. No segundo subsolo, uma área com piso de cerâmica e revestimento é o que sobrou de um antigo lava-rápido. Em uma ou outra parede, é possível ler nomes de pessoas que um dia passaram por ali. Conta-se que houve uma época em que os moradores de rua chegaram a ocupar a área. Diz-se de um jornaleiro que cumpria o expediente sobre a avenida e dormia debaixo dela.

“As áreas foram fechadas e viraram caixotes”, diz Marly Lemos, da Associação Paulista Viva. Ela conta que, em 2004, a prefeitura chegou a montar um comitê técnico para o estudo dessas áreas, mas as atividades pararam com a mudança de prefeito. “São poucas as que não têm potencial de aproveitamento. Na maioria, cabem coisas. Podiam ser escritórios, museus, galerias de arte. Mas a prefeitura não faz nada. Não quer nem saber do assunto”, completa.

Regina Monteiro, diretora da SP Urbanismo, órgão da prefeitura, diz que foi procurada pela associação. “Falaram comigo. Mas foi uma época difícil, a Emurb estava se organizando”, afirma. “Como estudo a cidade, até sabia que existiam esses vazios. Mas é a primeira vez que vejo a planta”, diz, referindo-se ao desenho de 1972, que a Associação Viva Paulista cedeu à reportagem. “Dá para fazer um superprojeto. Ele tem uma estrutura interessante, mas, por enquanto, não existe nada previsto.”

O buraco é mais embaixo

O arquiteto Nadir Curi Mezerani participou do “Nova Paulista”, projeto desenvolvido pela construtora Figueiredo Ferraz e proposto pelo Departamento de Urbanismo e Vias Públicas, na década de 1960. Além do alargamento da avenida, que passou de 28 m a 48 m, a proposta era que toda a extensão tivesse via rebaixada para os carros e, na parte de cima, um boulevar para os pedestres. A obra foi interrompida em 1973, quando apenas o cruzamento da Paulista com a Consolação havia sido concluído. “Foram feitos mais de 900 tubulões. Imagine a Paulista inteira rebaixada. É preciso vontade política, mas o projeto ainda é viável.”

Sem isso, segundo Nadir, não há sentido no uso das galerias. “Não dá para abrir um buraco no passeio da Paulista e fazer embaixo uma exposição de arte. Aquilo é um espaço muito valorizado para fazer uma coisinha aqui, outra ali. A cidade não pode ser projetada aos pingados.”

Fonte: Folha

Todas as galerias, das maiores às menores, constam em uma planta feita pela Emurb (empresa municipal de urbanização), em 1972. A maioria delas está como essa sob o Conjunto Nacional, sem uso. Outras são bem pequenas e não têm área de acesso. Mas há algumas que estão sendo utilizadas indevidamente: funcionam como estacionamentos ou espaços esportivos.

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