Por uma cidade compacta – entrevista com Angelica Benatti Alvim

Natural de Presidente Prudente (SP), a arquiteta e urbanista Angelica Benatti Alvim é professora da Universidade Presbiteriana Mackenzie há 20 anos – hoje dá aula de planejameno urbano, além de ser coordenadora de pós-graduação da FAU-Mackenzie. Já trabalhou no metrô e na CMTC (atual SP Trans). Poderia, portanto, falar horas e horas sobre os problemas do transporte em São Paulo, mas prefere outra leitura, transversal. “Os eixos estratégicos do SP 2040 favorecem a discussão de tudo o que há de importante, eles incitam a discussão articuladora sobre a cidade que nós queremos…”, analisa. “Porque a questão dos deslocamentos também está atrelada ao uso do solo, à questão da habitação, à distância entre moradia e emprego etc.”

SP 2040: Desde quando São Paulo começou a crescer de modo desordenado?

Angelica: A cidade compacta, ideia defendida ao redor do mundo, é contrária ao nosso modelo de cidade – modelo equivocado, em minha opinião. As nossas cidades andam crescendo e se espraiando de modo disperso, urbanização de baixa densidade que começou a se fazer notar a partir dos anos 60, com a priorização do uso do automóvel, e acabou por se intensificar nos anos 70. Há vários problemas gerados por esse tipo de urbanização que, aliás, implica numa cidade parecida com o modelo americano, mas sem a infraestrutura e a riqueza das cidades de lá. Um dos problemas diz respeito ao deslocamento das pessoas, afinal, nem todos os moradores de baixo poder aquisitivo são capazes de comprar um automóvel; outro está atrelado à poluição, com o aumento do índice de poluentes; e um terceiro aponta a distância entre a cidade que cresce e as áreas de emprego – que, a propósito, estão localizadas em um determinado setor (caso das áreas do centro e do Sudoeste paulistanos).


SP 2040: É de se concluir que a cidade cresce para abrigar quem não consegue morar perto do trabalho?


Angelica: O espraiamento da cidade não é decorrente do desejo da população, mas sim da falta de acesso à moradia, de uma política de habitação. O que se produziu nos anos 70 em São Paulo? Todas as ‘Itaqueras’ da vida, construídas, na Zona Leste, onde existiam vazios urbanos… E o que esse crescimento espraiado vai provocar no solo? O território não está preparado ambientalmente para receber essa ocupação predatória – sim, ela degrada. Temos duas grandes áreas de represa ao Sul e Sudoeste da cidade, exatamente onde ocorre uma ocupação irregular que coloca em risco as áreas frágeis dos mananciais… É preciso, portanto, produzir habitação para todas as classes sociais – e não precisa ser apenas o poder público a lidar com essa situação, é necessário dar crédito permitindo a todos morar próximo do emprego e das benesses que a vida urbana oferece. A vida, na cidade, pode ser muito rica.


SP 2040: Cidade espraiada é cidade pobre?


Angelica: Ao longo de nossa história, é visível a ausência de políticas públicas voltadas para o bem estar das classes sociais como um todo – ao contrário, houve o favorecimento de determinadas classes em detrimento de outras, não dá para negar. Mas, o que hoje acontece em toda a parte é que o crescimento espraiado não resulta apenas em pobreza, mas sim na proliferação de “ilhas”, ou ainda, das “anticidades” que são os condomínios fechados – ou seja, além da ‘periferização’ dos pobres, ocorre os ‘bolsões’ dos ricos, o isolamento, em suma, a negação do espaço público e conseqüentemente da cidade.


SP 2040: Como seria a sua ideia de cidade compacta?


Angelica: Cidade compacta é a cidade onde eu posso caminhar, chegar ao trabalho em curto espaço de tempo – e isso valendo para todos os moradores! –, onde posso deixar meu filho na escola e depois ir trabalhar com facilidade e, sim, uma cidade onde exista segurança. Cidade compacta é cidade usada 24 horas, tem gente andando, trabalhando, morando, estudando o tempo inteiro – e, nessa cidade, a segurança é algo bem mais fluido… Nela, há menos probabilidade de acontecer uma manifestação violenta, mas sim furto, algo corriqueiro.


SP 2040: Por onde começar para tornar a cidade de São Paulo compacta?


Angelica: De um lado, é preciso fortalecer o centro, o coração da cidade, criando inclusive opções de moradia nessa área central. E, de outro, promover as centralidades já existentes, os bairros tradicionais (Lapa, Pinheiros etc.). Mas o que se tem de evitar é o modelo do condomínio fechado, dos edifícios isolados em lote – a Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, é a exacerbação desse modelo, a meu ver, equivocado, de que o carro e a moradia privativa falsamente dão a impressão de dar conta de tudo.


SP 2040: Na consulta popular, ficou evidente que a questão da mobilidade é a que mais afasta o morador da São Paulo que ele mais deseja…


Angelica: Um retorno bem interessante… O que a população mais sofre, foi o que ela sinalizou, diz respeito aos seus deslocamentos. Mobilidade é de fato uma questão fundamental, mobilidade entendida como o direito de ir e vir e não apenas sob o ponto de vista do transporte público e individual, mas sim do direito de andar a pé… Porque a mobilidade precisa estar articulada à política de uso do solo, à oferta de moradia e de equipamentos, afinal, morar na cidade não significa, por exemplo, ir ao cinema ou andar em rua arborizada? Também não se pode negar que existe uma cidade já construída, a chamada ‘preexistência’.


SP 2040: Pode dar um exemplo, no universo urbano, de ‘preexistência’?


Angelica:Temos de valorizar o que foi construído ao longo do tempo, a herança, seja ela ambiental ou já construída na periferia… Temos de reconhecer e trabalhar sobre o que está de pé e foi erguido com recursos próprios. A periferia existe e é preciso requalificá-la. Achar formas de as pessoas viverem melhor onde elas estão, sem estimular, no entanto, que a expansão continue a levar as pessoas a viverem mais longe… É uma situação contraditória, mas ela precisa ser controlada. O espraiamento da metrópole é, em minha opinião, sinônimo da ausência de uma política pública mais eficiente de planejamento urbano. Temos de dar oportunidade aos moradores da periferia de viverem em outras áreas da cidade.


SP 2040: Consegue vislumbrar um horizonte promissor para São Paulo?


Angelica: Eu sou otimista, mas também realista. Temos de promover o retorno ao centro, por exemplo, mas os moradores andam se deslocando por falta de oportunidade de morar mais perto desse centro… Temos de aproveitar os vazios urbanos, fazer valer os nossos instrumentos urbanísticos… Operação Urbana. Ela é historicamente fruto do mercado imobiliário. Existem inúmeros vazios urbanos dentro das Operações Urbanas – é preciso, portanto, combinar o interesse do mercado privado com o da população de baixa renda. Temos de repensar o desenho da Operação Urbana… Exemplo: as áreas ociosas de indústrias que se estendem ao longo das ferrovias. E ainda incentivar os adensamentos urbanos relacionados com a capacidade de suporte do solo, adensar de acordo com a oferta de transporte público, rede de água e esgoto etc.


SP 2040: Há um exemplo de planejamento ao redor do mundo que serviria de inspiração para São Paulo?


Angelica: Eu não diria que existe um exemplo mundial com soluções para todos os eixos detalhados neste plano estratégico… Em Paris ou Barcelona, por exemplo, o processo de expulsão dos moradores de baixa renda para as áreas periféricas continua a ser intenso, é um problema mundial! Em Londres, está sendo feito um trabalho grande em razão dos Jogos Olímpicos, mas também há problemas… Talvez valha a pena se inspirar em exemplos mais próximos da nossa realidade, como o de trabalhar com as favelas, por exemplo. Em São Paulo, o próprio “Cantinho do Céu” vale ser lembrado, um projeto que qualifica a área periférica a partir das preexistências.


SP 2040: Que crítica pode ser feita, neste momento, ao plano de São Paulo?


Angelica: Um dos problemas do SP 2040, no meu entender, está na pouca relação com o Plano Diretor que é, afinal, o instrumento de planejamento instituído por lei. Qual será a relação entre ambos, como é possível combinar? Em Portugal – e eu acompanhei de perto a experiência de planejamento em Lisboa –, existe o Plano Diretor como instrumento normativo e o plano estratégico apresentando propostas, as estratégias para chegar à cidade que se deseja… O Plano Diretor é o principal instrumento da política urbana, tem de revisado a cada dez anos; o orçamento municipal tem de ser feito segundo as prioridades definidas por ele – não pode, portanto, ser ignorado… O SP 2040 poderia agir como uma espécie de carta de diretrizes, orientando o Plano Diretor sobre a cidade que queremos nas próximas décadas. Até porque ele vai mais longe ao apresentar projetos, como o dos Rios Vivos, no meu entender, questão fundamental, ela que está combinada com o desenvolvimento urbano e a sustentabilidade.


SP 2040: É possível, em 30 anos, construir um futuro melhor para a cidade?


Angelica: Se tiver vontade política sim. E se houver o envolvimento da população – não adianta achar que esse é um trabalho acadêmico, ao contrário, o plano precisa trabalhar com a população, garantir a continuidade, estabelecer prioridades. É preciso ter instrumentos capazes de fazer o acompanhamento transparente das políticas públicas… Quais são as metas e os recursos? A sociedade civil precisa acompanhar – caso contrário, é mais um plano para a gaveta e ela já está cheia! Tem de existir o comprometimento do governo para além de uma gestão, algo que só vai acontecer se a sociedade abraçar o projeto… E ele precisa ser muito bom ou isso não vai acontecer.


(Texto de Marion Frank)
Fonte: SP2040

Representante do Mackenzie no Conselho Consultivo do SP 2040, Angelica aproveita sempre a oportunidade para elogiar o viver na cidade. Com uma condição: “A cidade precisa ser compacta, fluida, segura.” Outras características, na entrevista a seguir.

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