SÃO PAULO: A Bicicleta não é uma Causa

Por Gabriel Kogan
São Paulo tem visto, felizmente, uma proliferação de grupos organizados dispostos a discutir o uso da bicicleta na cidade. Esses grupos atuam como guerrilheiros urbanos, dando sangue e suor. A bicicleta é um meio de transporte importantíssimo para a cidade contemporânea, estão certos. Paris desenvolveu nos últimos cinco anos um sistema complexo de ciclovias que tem mais de 1,5 milhão de viagens por mês. Quarenta mil toneladas de CO2 deixam de ser lançadas na atmosfera e, ao mesmo tempo, a população é por isso mais saudável não apenas pela melhora do ar como também pelo exercício físico diário. A topografia acidentada de São Paulo é um pequeno obstáculo, mas que não inviabiliza um sistema de transporte urbano cicloviário amplo. A bicicleta é, indiscutivelmente, um meio de transporte urbano desejável.

Após esse breve elogio da bicicleta, é necessário ponderar a atuação dos grupos guerrilheiros, e se a atuação deles não é inócua. Não é sempre claro se a bicicleta não adquire para eles uma dimensão transcendental, que seria capaz de resolver os problemas urbanos ou, pior, encerraria por si só a questão. Em outras palavras, a bicicleta deixa de ser um meio de tomada de consciência, um símbolo de uma resistência, para se tornar a causa em si. Não existe nada de sobrenatural em relação à bicicleta. Ela não é sequer, diga-se, nem a modalidade mais primordial para uma cidade com as características morfológicas e espaciais de São Paulo.

O grande risco que esses movimentos podem facilmente cair é de uma análise urbanística ingênua e bastante conveniente para os setores conservadores da política partidária. Uma espécie de urbanismo naïf. É como saber ver o problema, entender as contradições da cidade contemporânea, mas não conseguir formular minimamente uma crítica. O problema da bicicleta é um assunto relevante para a mobilidade urbana, mas uma parte relativamente pequena da crise urbana que vivemos como um todo. Muito difícil seria comparar, em termos de importância, o problema da bicicleta com o problema habitacional ou hídrico da cidade. A bicicleta pode sim ser a porta de entrada para a discussão do transporte urbano e sua relação com uma cidade respeitosa com o Homem, e não para o carro. Isso nem sempre parece claro: uma porta de entrada. É apenas o mote de uma discussão ampla, que transcenderia então o urbanismo e chegaria à política.

Há alguns anos, fui convidado para participar de uma discussão sobre São Paulo promovida, sobretudo, por movimentos de ciclistas. Na época os grupos já pareciam muito organizados. Saí dessa noite de debates bastante preocupado. Lá pelas tantas o assunto saiu da bicicleta e entrou em transporte coletivo: a grande maioria dos presentes era incapaz de entender que o único transporte de massas viável para uma cidade de 2100km2 como São Paulo é o metrô e não, como tentavam argumentar os presentes, o ônibus – uma modalidade sempre complementar ou, no nosso caso atual, um precário arremedo. Isso é algo tão fundamental para o urbanismo quanto girar os pedais para andar de bicicleta. Se os presentes não conseguiam entender esse conceito tão básico, entre alguns outros que foram perpassados naquela noite, estavam despreparados para promover uma discussão urbanística, mesmo que entendessem tudo sobre bicicleta e ciclovias.

Desde esse dia, comecei a acompanhar os movimentos com um olhar muito mais crítico e, por vezes, cético. De tempos em tempos, por causa de acontecimentos trágicos, fervilham manifestações fortes sobre o assunto, sobretudo na internet. Algumas das posições parecem conter o DNA tanto da ideia da bicicleta como causa, quanto, mais especificamente, de um urbanismo naïf. “A bicicleta pode tudo”, comentou um mais alterado. A bicicleta não pode tudo. A bicicleta não está acima do pedestre, por exemplo. Aliás, essa mesma reação pública não é desencadeada com atropelamentos de pedestres. Não existe qualquer reinvindicação política organizada nesse sentido, mesmo sendo a questão do pedestre bastante mais relevante do que a da bicicleta em São Paulo.

Esse tipo de posicionamento político, extremamente focado e sem embasamento científico, interessa, sobretudo, à ideologia partidária. Restringir o problema urbano – essa fenomenal crise urbana, essa crise dos nossos tempos – a um problema único é um desejo do poder vigente.

Pois que a bicicleta e esses mártires sejam um símbolo de uma transformação urbana e política, que passa e, quem sabe (por que não?), se inicia com a bicicleta, mas nunca – e que se tenha sempre essa consciência – tem nela seu fim. Teria a bicicleta o poder, como musa inspiradora, de nos mover do marasmo político em que vivemos nas grandes cidades?

Fonte: Canal Lateral

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s