Enrique Peñalosa / Urbanized

Como publicamos em dezembro, o documentário de Gary Hustwit – Urbanized (veja o trailer), iria retratar os desenhos das cidades e seus problemas – espaços públicos, mobilidade preocupações ambientais, entre outros.
Abaixo está uma transcrição, realizada por Cristian Contreras, de Enrique Peñalosa – ex-prefeito da cidade de Bogotá, Colombia.




“Muitas coisas das cidades são intuitivas, por exemplo, parecia ser que, fazer autopistas, vias maiores (amplas) ou vias elevadas, resolveria o congestionamento veicular e claramente, este nunca foi o caso, isto porque o que cria o tráfico, não é o número de veículos, senão o número de viagens e a duração destas, logo, quanto mais pistas forem geradas, pior será o tráfego.

A única maneira de solucionar o congestionamento veicular, é restringir o uso do automóvel e a forma mais óbvia de restringir este uso é restringir o estacionamento.

A gente tende a imaginar o ato de estacionar como um direito, quase como um direito fundamental que deveria estar incluído na carta das Nações Unidas. Na nossa constituição temos muitos direitos: o direito à habitação, à educação, à saúde, mas não encontramos o direito a estacionar, nunca conheci uma que inclua este direito. Se tu perguntas: Onde devo estacionar? O prefeito te poderia dizer que é como se perguntasse onde colocar tua comida ou tua roupa, este não é um problema do governo local.

Antes de ser prefeito, nunca havia conhecido uma cidade que se odiava mais que Bogotá, havia uma total falta de autoestima e esperança. Então quando fui eleito, começamos a investir nas pessoas, em trilhas e parques, em criar escolas, bibliotecas, e também criamos um sistema de transporte baseado em ônibus.

Copiamos o sistema de Curitiba, uma cidade brasileira e o nomeamos Transmilenio, demos um nome, isto, porque os ônibus, na maioria dos lugares possuem um estigma, uma má imagem, de ser para os pobres, então nós tivemos que elevar o status deles.

O sistema de transporte, Transmilenio, na realidade funciona mais como um sistema de Metrô sobre rodas do que como um sistema de ônibus tradicional.
Os ônibus circulam por vias exclusivas, a gente paga quando entra na estação, quando os ônibus chegam, as portas desta e as do ônibus se abrem simultaneamente, podem descer e subir 100 passageiros em questão de segundos. Muita gente agora salva até duas horas diárias, porque antes, no sistema antigo circulavam no congestionamento veicular, e agora podem ir de um extremo ao outro muito rapidamente (pelas vias exclusivas).
Um ônibus com 100 passageiros tem direito a 100 vezes mais espaço que um veículo com um passageiro

Pelo mesmo custo com o qual poderíamos ter construído 25 km de metrô subterrâneo, construímos 400 km de Transmilenio. Este sistema além de mais flexível, as cidades mais jovens, não possuem um centro tão definido e seu centro poderia mudar, logo, se construir uma infraestrutura extremamente cara, como é uma linha de metrô, poderias se deparar com um novo centro, em questão de 20 ou 30 anos, em outro lugar, a algo que a linha de metrô não chega.

O sistema também é um poderoso símbolo de democracia, o primeiro artigo em toda a constituição, diz que todos os cidadãos são iguais ante a lei, e isto não é mera poesia, significa, por exemplo, que um ônibus com cem passageiros, possui direito a cem vezes mais espaço nas vias que um veículo que leva apenas um. Isto é a democracia trabalhando.

Agora estamos numa rede de vias de 24 km exclusiva para bicicletas e pedestres, em bairros de baixa renda, que os conectam com bairros mais ricos, creio que é uma revolução na maneira como funciona a vida urbana. Este tipo de infraestrutura de alta qualidade para bicicletas aumenta o status social dos ciclistas. Antes de implantarmos as ciclovias, as pessoas de baixa renda sentiam vergonha de utilizar a bicicleta, agora, com uma infraestrutura de alta qualidade e protegida, exclusiva para isto, nos mostra que um cidadão em uma bicicleta de 30 dólares é de igual importância que outro num carro de 30000 dólares.

Podem ser vistas situações interessantes, como que em alguns lugares, ciclistas e pedestres possuem vias pavimentadas e os automóveis circulam pelo barro, a prioridade é com os primeiros e logo, mais tarde, em algum momento o faremos com os automóveis, mas primeiro ciclistas e pedestres, isto é uma mostra de respeito pela dignidade humana, por todos, não somente pelo os que possuem automóveis, aqueles que sempre tendem a se considerar os mais importantes nos países em desenvolvimento, de novo, isto é a democracia trabalhando.”



Helm , Joanna . “Pessoas e não carros” 05 Jun 2012. ArchDaily. Accessed 07 Jun 2012. 

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