Boca no Trombone: A Ditadura da Bicicleta

Mais de uma vez li artigos, notícias e protestos árduos sobre a necessidade de implantação de um sistema de ciclovias para a cidade de São Paulo (e também para outras cidades brasileiras) e, de verdade, fico inconformada.
Já discuti algumas vezes aqui no Ensaios Fragmentados como é importante pensar primeiro em um sistema de transporte público adequado e massivo para a cidade, porque SIM, essa é a única maneira de resolver o problema de mobilidade que vive São Paulo. De qualquer maneira, neste post não falarei sobre isso. Será um post desabafo, porque não posso entender como tantas pessoas defendem tão fortemente o uso da bicicleta como solução de transporte urbano…
Acho que é importante esclarecer que eu não sou contra as bicis e muito menos contra os ciclistas, inclusive tenho uma bicicleta e de vez em quando passeio por aí! É uma ótima forma de fazer exercício, não polui, você curte mais a paisagem e com um sistema de ciclovias facilitaria muitos deslocamentos. Mas é exatamente por que eu uso e sou capaz de usar uma bicicleta que eu não entendo essa campanha tão forte!
Usando o conceito de quantidade de passageiro por veículo dá preferência na via pública, a bicicleta perde para todos, inclusive para os automóveis porque, querendo ou não, na cidade de São Paulo a média de passageiros em automóveis é de 1,3 (0,3 “pessoa” a mais que uma bicicleta). Mas se pensarmos que a bicicleta utiliza muito menos espaço viário e por isso se deveria dar preferência de acordo com o espaço utilizado, aí ela ganha! Contudo as 80 pessoas que utilizam o ônibus, que ocupa o espaço de umas 15 bicicletas (igual a 15 pessoas), sairiam perdendo…
Que fazer então?
A idéia é que todos tenham espaço no sistema viário e que as velocidades de cada tipo de veículo sejam respeitadas. Ou seja, a ditadura da bicicleta não pode existir; a bicicleta tem que coexistir! Isto quer dizer que se a bicicleta é mais um meio de transporte que faz parte de um conjunto de meios de transporte, o ciclista DEVE respeitar as leis de trânsito.
Em muitos países os ciclistas são obrigados a usar colete luminoso (tanto de dia como de noite), ter faróis, esperar o sinal vermelho, andar na mesma direção do trânsito, dar passagem para os pedestres…  Na Alemanha as crianças têm aulas de trânsito para bicicletas nas escolas e tem provas, se não passar não pode usar a bicicleta como meio de transporte. E ciclista que não respeita as leis de trânsito toma multa. Isso definitivamente não acontece em São Paulo!
Com tantas regras a bicicleta já não parece tão interessante, nem mesmo com a pegada sustentável que ela tem e que os marqueteiros de plantão tanto adoram… (sim, lenham nas entrelinhas)… Além disso, antes de ter tantos pedidos e manifestações pela ampliação do uso da bicicleta, não seria necessário e óbvio REVOLTAS POPULARES em relação ao estado de nossas CALÇADAS?
Sim, ciclistas, motoristas, motoqueiros, usuários de transporte público, antes de ser qualquer uma dessas pessoas nós somos PEDESTRES!
Se a disputa por espaço do pedestre com o carro já é uma história antiga, a disputa do pedestre contra as bicicletas ainda vai dar o que falar! Afinal somos todos pedestres, mas não somos todos ciclistas: tem pessoas que não tem condição física para pedalar, tem pessoas idosas que não conseguem e tem gente que simplesmente não sabe e não consegue aprender…
A pressão para novas ciclovias é tão grande (e inclusive justa) que os políticos são capazes de construir ciclovias ao invés de calçadas para ganhar votos. Acontece em uma avenida perto de São Mateus! Antes as casas davam diretamente para uma avenida movimentada, hoje elas dão para uma ciclovia. É só abrir a porta de casa que de duas uma: ou você dá com a porta na cara do ciclista ou você é atropelado pela bicicleta.
Aonde estão as manifestações pelo direito de ser pedestre?
Isso que eu fico me perguntando…

7 Respostas para “Boca no Trombone: A Ditadura da Bicicleta

  1. Acho muito válida sua posição, porem preciso defender o movimento das bicicletas em alguns pontos. Nenhuma campanha a favor da bike fala que só deve existir ela, pelo contrario as campanhas, sérias, na grande maioria sem fala da inclusão da bike como MAIS UM MEIO de transporte e não como único meio. e TODAS as campanhas sem exceção falam q os ciclistas devem respeitar os sinais de trânsito, os pedestres e tudo mais, inclusive o uso de equipamentos de segurança. Se por acasa alguns ou muitos ciclistas não cumprem isso em São Paulo é porque não existe uma educação de trânsito como a que você citou na Alemanha. O uso da bike como transporte tem sim que ser incentivado, pelo simples motivo que é muito mais barato para o governo, mais fácil de se implantar, e principalmente mais rápido. Pode não ser tão eficiente como ônibus e Metrô. Mas aí eu te pergunto> como e ONDE colocar mais ônibus nas ruas? Pedestres, sim todos são, mas em curtas distâncias, o que está em discussão é o deslocamento da população em longas distâncias em menos tempo, e no andar da carruagem de São Paulo a solução "menos pior" é a bike.

  2. Oi Le,Eu realmente acho que as campanhas falam sobre as leis de transito e a bici como mais um meio de transporte, mas para seu uso adequado seria necessário a construção de ciclovias, ou seja, um local exclusivo pra elas…Quantos locais exclusivos para ônibus existem em Sao Paulo? E o ônibus é o sistema de transporte publico mais barato para o governo, contudo muitassss de nossas vias expressas nao contam com corredor exclusivo para eles! É o caso das Marginais, que em uma pequena parte conta com ciclovia, mas os ônibus nao tem qualquer preferência!Isso para nao falar da condição do pedestre que tem que conviver lado a lado com as Marginais!!!Nao parece um absurdo que exista uma ciclovia mal feita e sem qualquer conexão na Marginal enquanto os pedestres não tem calçada e muito poucas passarelas para andar e cruzar essa via? Assim que acho que a pergunta de onde colocar mais ônibus se responde com uma política de mobilidade urbana voltada ao meio de transporte de massa e coletivo, dando preferencia pelo meio que leva mais gente, o que é muito mais democrático e inclusivo! Uma pessoa cega, por exemplo, pode usar um ônibus mas não uma bici…A outra questão do pedestre vencer distâncias curtas não me parece justificar as bicis tb… As bicis tampouco vence grandes distâncias, principalmente em um relevo tao acidentado como o de SP! Somente poucos ciclistas têm a condição física de vencer essas barreiras!Logicamente q um sistema de bici deve existir e funcionar integrado com outros meios de transporte para ampliação da mobilidade, mas o que me deixa confusa é essa grande onda sustentável que vêm e vence as questões mais fundamentais como o direito de ser pedestre!Ser pedestre também é sustentável e com outros meios de transportes que o integrem a mobilidade do transeunte tb seria bastante ampliada! Pq não tem campanha para isso? É isso que eu nao entendo e que faz com que essa ditadura das bicis pareça só uma questão de moda!

  3. A nobre autora do texto só anda de carro com ar condicionado, apenas pedalou na infância (com rodinhas) e quer intitular um texto em cima de um fenômeno inexistente: “ditadura das bicis”. Filha, vá pedalar e só escreva algo depois de pesquisar.

    • Olá Ana, como você deve ter lido no texto e depois em um comentário que fiz ao Leandro, não sou contra as bicicletas, inclusive sou usuária e pesquiso a respeito.

      O que eu acho e que a bicicleta, por si só, não é a solução para os problemas de mobilidade que enfrenta a cidade. A solução é a integração da mesma com sistemas de transporte público de alta capacidade e de qualidade. Além disso, a condição para os pedestres (que somos todos, pelo menos em uma parte de nossos trajetos) não é discutida em nenhum momento.

      A bicicleta é um meio individual de transporte, assim como o carro (basicamente) e caminhar. No entanto o carro sempre foi priorizado nas nossas cidades e, atualmente (depois de muito esforço e brigas) as bicicletas começam a ser. Contudo os modais coletivos, mesmo com o Movimento Passe Livre, continuam sendo colocado de lado e controlados por cartéis, o que impossibilita a integração das bicicletas e dos pobres pedestres (últimos nas listas de prioridades) de se conectarem a essa rede e terem suas mobilidades ampliadas e garantidas.

      Além disso, o transporte público e mais inclusivo que as bicicletas. Todos podem usar o transporte público (pessoas com mobilidade reduzida, pessoas idosas, pessoas sem condicionamento físico, pessoas que simplesmente não sabem usar uma bicicleta, etc), por isso, esse modal deveria ser o primeiro a nossa lista de prioridades. Além disso, um ônibus ocupa o mesmo espaço que, aproximadamente, 20 bicicletas. Ou seja, um ônibus levaria até 80 pessoas em um mesmo espaço que estariam 20 pessoas de bicicleta. É uma questão de hierarquia em relação à quantidade de pessoas transportada.

      Era isso que eu queria dizer nesse texto. Devemos pensar em cidades coletivas e só assim cada indivíduo terá seu espaço garantido. Enquanto pensarmos em soluções individuais, nada mudará de fato.

      Um abraço

    • Olá, trabalhar indo caminhando (e depois usando transporte público) é a condição da grande maioria das pessoas das metrópoles. Todo mundo é pedestre em pelo menos uma parte do trecho de seu trajeto, mesmo que seja até o ônibus, mesmo que seja até a bicicleta. A questão é que mesmo todos sendo pedestres, esse “meio de transporte” ainda é o último a ter um olhar, exemplo disso é a condição de nossas calçadas!

      E sim, muitas vezes faço o caminho a pé de casa aou trabalho! Não vejo problema nenhum nisso.

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