Paisajes Emergentes, GrupoSP, UNA, Luciano Margotto: Proposta para o Parque Olímpico – RJ – 2011


“O que atrai na região é o ar lavado e agreste, o tamanho – as praias e dunas parecem não ter fim -, e aquela sensação inusitada de se estar num mundo intocado, primevo. Assim o primeiro impulso instintivo, há de ser sempre o de impedir que se faça lá seja o que for. Mas por outro lado, parece evidente que um espaço de tais proporções e tão acessível não poderia continuar definitivamente imune, teria de ser, mais cedo ou mais tarde, urbanizado.”
Lucio Costa, Plano Piloto para Urbanização da Baixada compreendida entre a Barra da Tijuca, o pontal de Sernambetiba e Jacarepaguá, 1969.

INTRODUÇÃO: DUAS ESCALAS DISTINTAS

O desafio lançado pelo concurso é que se encontre solução urbanística adequada a um programa de caráter internacional, como talvez se imagine, mas o que está concomitante e verdadeiramente em jogo é a própria estruturação da vida urbana após o evento, privilegiando a população da cidade, assim como a valorização da estrutura natural existente. São dois problemas distintos e de escala diferentes, que se entrosam.
O problema consiste então em encontrar a fórmula que permita conciliar a urbanização na escala que se impõe, com a salvaguarda das peculiaridades da cidade que será, e da paisagem que importa preservar, como vaticinou Lucio Costa.
A ideia principal deste projeto é proporcionar à cidade do Rio de Janeiro, sobretudo no local onde se implantará o “Parque Olímpico”, um espaço generoso e aberto à urbe, facilmente usufruído, articulado tanto com a nova infraestrutura urbana como com os elementos urbanos a serem implantados.
Não fazer objetos autônomos, por mais cômoda que seja esta atitude, mas pensá-los como elementos de uma nova experiência urbana que pressupõe o diálogo e a convivência. Propõe-se projetar o conjunto sem fragmentar o tecido urbano e com a ideia que a arquitetura não subtrai, separa ou resguarda, mas adiciona, agrega e regenera o espaço da existência coletiva e da urbanidade.
A aparente complexidade do programa se desfaz quando este é organizado pelo espaço e pela construção, pela arquitetura.



CIDADE E EQUIPAMENTOS: ARQUIPÉLAGO DE ACONTECIMENTOS

Cabe ao complexo de equipamentos propostos acompanhar não apenas as grandes transformações sociais e culturais, mas gerar novos modelos de urbanidade a serem reproduzidos e recriados, estabelecendo continuamente a articulação entre a dimensão arquitetônica e o papel social e urbano do patrimônio edificado.
O que se propõe, portanto, não são construções isoladas ou auto-suficientes, mas um conjunto edificado, uma trama que seja capaz de urdir a urbanidade.
O programa não está organizado em blocos autônomos e deverá permitir uma rápida apreensão do conjunto por parte do usuário que poderá construir livremente os percursos entre os diferentes espaços e atividades à maneira do comportamento do pedestre nas ruas e praças da cidade.
Os acontecimentos deverão ser homogêneos no modo Legado: habitação, parque e natureza em toda superfície, como um conjunto íntegro, como uma cidade desejada.



A PRAÇA ELEVADA DE ARTICULAÇÃO: GRANDE GENEROSIDADE URBANA – O TÉRREO ESPESSO DA CIDADE

Uma extensa superfície que paira sobre o terreno organiza os acessos de público e atletas durante os jogos e se constitui no espaço público protagonista, tanto no modo Jogos como no modo Legado: uma praça elevada de circulação e sombreamento, como uma grande marquise.
Sua altura permite que os usuários desfrutem da paisagem do entorno e se relacionem visualmente com a água, e admite a instalação de todo programa esportivo a ser edificado. Sobrelevar-se, neste caso, é significativo para que se possa permitir a visualização simultânea das montanhas e das águas e tornar possível o entendimento do território.
Como a estrutura se desenvolve em diferentes alturas, se relaciona com o nível do terreno como extensão deste chão por meio de rampas suaves, garantindo assim a acessibilidade total do conjunto. Os acessos ainda serão incrementados com blocos de apoio que poderão abrigar a circulação vertical e os sanitários. Sua distribuição espaçada permite conformar um espaço sombreado generoso, com o número reduzido de apoios, onde a vida pode fluir de forma desembaraçada.
A área da Marquise é controlada pelas aberturas circulares possibilitando que as atividades esportivas dos Jogos, assim como do Centro Olímpico de Treinamento façam parte da vida cotidiana e sejam incorporados, da mesma forma que a natureza, como paisagem. A remoção dos equipamentos esportivos não permanentes permitem a criação de massas arbóreas que animarão no modo Legado tanto o nível da praça, como o nível do terreno, ampliando as áreas e sombras e equipamentos que se situam sob a estrutura.
Articulado com os equipamentos esportivos, a estrutura conformará um sistema térreo autônomo de apoio e toda sorte de utilidades, com passeio coberto e seguimento contínuo, como nas ruas tradicionais, mas quebrado por sucessivas mudanças de rumo, criando-se assim pátios, praças, pontos de encontro e áreas de recreio para usuários com o objetivo de propiciar a confluência em vez da dispersão.
A necessária organização da frente (F.O.H.) e fundos (B.O.H.) dos equipamentos é resolvida aqui pelos níveis distintos que segrega a circulação de público e de atletas. Estes pisos deverão se relacionar mais fluidamente no modo Legado, mas permanecerão estrategicamente separados como no modo Jogos, garantindo o funcionamento do Centro de Treinamento.
As grandes aberturas que abrigam os equipamentos e praças abertas insinuam uma permeabilidade à luz natural e inversamente filtrará a luz artificial que transborda para o espaço externo, conferindo à estrutura, apesar de sua extensão, um caráter evanescente.
É o elemento estruturador de todo o complexo. Apesar de suas proporções, trata-se de um edifício discreto do ponto de vista da expressão arquitetônica: lajes em estrutura de concreto com espessuras que permitem incorporar todas as instalações e, conforme a necessidade, ofertar planos vegetais aéreos. Imagina-se esse espaço de transição como um cortile contemporâneo, sem colunatas, pilotisainda mais livre que o moderno, uma marquise de caráter excepcional. A diversidade programática é um de seus atributos qualificadores, para que o uso tanto no modo Jogos como Legado desempenhe papel relevante.
É esta estrutura que enfatiza o destaque para vida cotidiana além de evitar as soluções autônomas. Se a cidade é marcada comumente pelos edifícios extraordinários se sobressaem em meio à massa de edifícios habitacionais e ordinários, aqui a proposta está no contrapelo desta ideia, como uma cidade invertida.
Trata-se de um elemento que marca a paisagem urbana, organiza o território, confere caráter ao conjunto, mas que se desfaz pela serenidade que marca sua existência.



O NOVO CHÃO: A ORGANIZAÇÃO DO PROGRAMA E DO TERRITÓRIO

No nível do terreno uma primeira ação fundante é a construção de quatro canais que farão parte do sistema de drenagem e infraestrutura urbana, além de se constituírem em elementos paisagísticos. Vislumbra-se, desta forma, a possibilidade de uma relação mais franca de todo conjunto urbano com a água, como elemento chave do paisagismo, o que não ocorre hoje.
Um novo traçado viário proposto ao nível do terreno – sobrejacente aos canais – absorve o trânsito local e resolve sua distribuição, além de organizar os espaços de ocupação do modo Legado, sem desconfigurar, no entanto, as relações desejadas com o Parque e futuro Centro Olímpico de Treinamento.
Os equipamentos esportivos situados neste nível, sob a estrutura de articulação, configuram outra geometria viária, mais singular, mas não desconectada do traçado regulador que admitirá a cidade no modo Legado.
Os espaços vazios, no modo Jogos, além de parcelas temporárias do programa, admitirão ainda espaços para estacionamento e equipamento de mídias, além de um paisagismo que será ao máximo incorporado a cidade. Como memória, durante o modo Jogos, partes do traçado de autódromo serão mantidas– destinadas somente aos pedestres – agregado ao paisagismo proposto.
Importante destacar o valor da sombra, sobretudo no clima do Rio de Janeiro. É neste nível que se situam os espaços protegidos e resguardados do sol e das intempéries, que caracterizam, por oposição aos espaços ensolarados e expostos da marquise, o futuro Parque Olímpico e seu desdobramento futuro como centro Olímpico de Treinamento com um caráter ampliado – mais urbano e habitado – definitivamente aberto ao desfrute de todos.



UMA ESTRUTURA ALONGADA DE ACOLHIMENTO: O CENTRO DE MIDIA E HOTEL

Uma extensa estrutura de 1.100 metros, paralela a nova Avenida Abelardo Bueno, abrigará tanto o Centro de Mídia como Hotel no modo Jogos (e poderá ser apropriado como espaços comerciais ou de serviços no modo Legado). Seu afastamento em relação à via conforma uma larga praça de acomodação com 50 metros de largura e se configura como espaço de acolhimento do público no modo Jogos para embarque e desembarque. A dimensão alongada permite ainda receber o fluxo de pedestres advindo de ambos os terminais de transporte públicos a serem implantados.
O térreo se relaciona diretamente com o canal principal, que serve como limite de segurança para o perímetro do Parque. O alargamento da embocadura do canal junto às Arenas Esportivas tem como objetivo conformar uma marina onde devem estar localizados os acessos à torre do hotel. Ademais deverá haver um serviço de ligação por meio de embarcações entre a Vila Olímpica, Rio Centro e o Parque Olímpico, facilitando o transporte de atletas e pessoal ligado aos Jogos.
O programa do Centro de Mídia, no pavimento térreo, esta organizado em 3 blocos distintos. O primeiro consiste no acesso do público em geral, revista e segurança e está localizado no eixo da rampa de acesso à marquise. Este espaço deverá ser completamente transparente, apesar de fechado, como grande salão de recepção no modo Jogos. No outro extremo, o outro acesso destina-se ao Centro de Mídia, independente do público, que terá passagem para o recinto olímpico sob as Arenas Esportivas. Finalmente o Centro de visitantes, por ser independente, e não ter acesso ao Parque Olímpico, por ter que estar próximo à entrada principal, ficará no centro deste bloco, no nível térreo.
O hotel é uma peça mais alta que se conecta diretamente ao Centro de Mídia por três pavimentos, garantindo a conexão direta durante os Jogos entre Mídia e Hotel, e no futuro, entre um provável centro comercial e de serviços e o hotel.
O MPC (Centro de Imprensa) está localizado no primeiro pavimento deste bloco, sob o andar intermediário. Este piso aberto é como uma varanda aberta, como se os espaços da marquise se estendesse também para esse bloco, onde estariam os restaurantes e as áreas de estar que servem a todo conjunto, como elementos de animação desta grande sombra.
O IBC (Centro de TV) está localizado nos 3º e 4º pavimentos e destes níveis as transmissões ao vivo (estúdios) durante as olimpíadas poderiam ter como cenário de fundo o próprio Parque.
A cobertura do edifício deverá ser utilizada como um jardim que permite visuais alongadas além de se contribuir em vista a partir do hotel dos edifícios pré-existentes do outro ado da Avenida.
Esse edifício (Centro de Mídia) desenha a frente do novo Parque, conferindo qualidade urbana ao passeio público. Poderá, em sua ocupação definitiva, abrigar um interessante centro comercial onde, no térreo,  além das áreas de usos específicos (lojas, cafés, circulações verticais), ocorrerá uma sucessão de espaços públicos, praças cobertas, que conectam visualmente a calçada e a praça longitudinal, ao interior do conjunto. Este piso é delimitado na sua face sul por um canal navegável que se soma a paisagem exuberante do lugar. Limites que se constroem como paisagem e não como barreiras.
É estratégico o posicionamento desse edifício que, por si só, é capaz de garantir, na sua interface com a cidade, o caráter urbano desejável a esse setor da cidade do Rio Janeiro. O edifício desenha a rua, ao mesmo tempo em que permite a diluição dos limites do passeio público, criando uma condição de permeabilidade, a integração dos novos empreendimentos, espaços públicos, esportivos e de lazer ao principal eixo de conexão urbana.



PORVIR: O LEGADO E UMA SUGESTÃO PARA O ENTORNO – O RIO DE JANEIRO COMO SIGNO

Providência importante do ponto de vista paisagístico para que este recinto assuma novo papel significativo ao Rio de Janeiro é o planejamento dos ambientes urbanos vizinhos aos terrenos objeto do concurso, incluindo a ambientação das margens.
Em meio a uma estruturação fundiária indefinida e de usos mistos da vizinhança, a implantação do complexo representa uma oportunidade para organização e hierarquização do território urbano lindeiro.
O projeto admite transformações desejáveis do entorno imediato, mas admite sua construção independente destas mudanças. Assim, como verso e anverso de uma mesma cidade – um verdadeiro “gerador” urbano – são equivalentes para inaugurar os termos de uma integração futura entre complexo e território. Quando isso for possível, terá cumprido seu papel de interventor urbano daquela área, seja por sua volumetria, sua proposta ética e estética e pela preocupação prévia atribuída à edificação no estabelecimento de um diálogo com o entorno.



ASPECTOS CONSTRUTIVOS: CONSTRUÇÃO EM ETAPAS

A implantação da barra (Centro de Mídia e Hotel) e placa (marquise), que orbitam as estruturas esportivas de forma independente, permite vislumbrar uma construção em diversas frentes e várias etapas que serão estratégicas pela dimensão do conjunto e possibilitarão uma ocupação sucessiva e organizada do território.
Em relação a expressão arquitetônica do conjunto as construções serão tratadas de forma concisa e econômica, sempre procurando evidenciar os materiais empregados.



ECO-EFICIÊNCIA: ALTA QUALIDADE AMBIENTAL

Finalmente o projeto incorpora os conceitos mais amplos de eficiência e correção que possam reduzir ou eliminar significativamente os impactos negativos dos edifícios em seus ocupantes e no meio ambiente, em cinco grandes áreas: 1) Planejamento sustentável do sítio; 2) Proteção e uso eficiente da água; 3) Eficiência energética e energia renovável; 4) Conservação de materiais e recursos; 5) Qualidade do ambiente interno.
Deve-se sublinhar que é possível oferecer uma independência energética do Parque Olímpico (e posteriormente do Centro Olímpico) por meio de turbinas eólicas que ainda marcarão simbolicamente a paisagem reconstruída.

Construir este conjunto é, no nosso entendimento, construir uma parte da cidade, difundindo as qualidades urbanas que caracterizam as áreas nobres do Rio de Janeiro. É compreender esta nova experiência urbana constituída de elementos articulados – algo mais forte que apenas objetos isolados ocupando um mesmo espaço – uma ação fundamental para a edificação da sociedade e de sua cultura como um fazer coletivo.


CONCURSO INTERNACIONAL

ARQUITETURA

Alvaro Puntoni, João Sodré, João Yamamoto, André Nunes
Luciano Margotto (Republica Arquitetura)
Cristiane Muniz, Fabio Valentim, Fernanda Barbara, Fernando Felippe Viégas (Una Arquitetos)
Edgar Mazo, Luis Callejas, Sebastian Mejia (Paisajes Emergentes)

COLABORADORES

Giovanni Meirelles, Gustavo Delonero
Ana Paula de Castro, Bruno Gondo, Carolina Klocker, Eduardo Martorelli, Henrique te Winkel, Igor Cortinove
Mellisa Naranjo, Dasha Lebedeva, Victor Marechal,  Sebastian Vela, Martin Baena, Juan Esteban Giraldo, Maria Jose Arango,  Manuela Bonilla


Fonte:gruposp



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