A carência como trunfo / Alejandro Aravena

Deu no Estadão – 23 de setembro de 2012


Figura central da nova geração, Leão de Prata na Bienal de Veneza, chileno analisa desafios da crise

Enfant terrible da arquitetura latino-americana, o chileno Alejandro Aravena, do escritório Elemental, mudou há 9 anos o conceito da moradia social com o projeto da Quinta Monroy, um conjunto habitacional em Iquique, a quase 2 mil km de Santiago. A Quinta Monroy é composta de residências em torno de 40 m² edificados (a outra metade a família define de acordo com sua necessidade), de preço total em torno de US$ 7,5 mil (R$ 15 mil). Estendeu-se a outros locais, do deserto à Patagônia. Houve uma tentativa de se instalar aqui, na favela de Paraisópolis, mas não saiu do papel por causa da burocracia. Aravena fala amanhã, às 14 horas, no evento Arq.Futuro, e às 17 horas debate com brasileiros.

A Quinta Monroy, no Chile: arquitetos edificam a metade, e a outra metade é realizada pelo morador


Você tem 45 anos, faz parte de uma geração que rompe com o modernismo…

Não vejo relação entre idade e a ruptura com um período anterior. Uma das primeiras coisas que se tem de fazer é mergulhar no corpo de conhecimentos da disciplina, que são os edifícios mesmos, estudá-los, desenhá-los, medi-los. Lições há em todos os períodos, se as obras são boas. Tenho claríssimo a enorme distância que me falta percorrer até alcançar o nível da grande arquitetura e para chegar lá não posso me dar ao luxo de romper com nenhum degrau. Corbusier fez grandes conquistas para a disciplina. Acabo de conhecer Chandigarh, na Índia, e é muito impressionante a atualidade de um projeto dos anos 1960. Estive em Bangladesh na obra de Louis Kahn, e também ali se sente a distância que estamos desse grande nível que a arquitetura pode alcançar. Niemeyer fez projetos notáveis nos anos 1950 e 1960, obrigou muita gente a reinventar-se, a tentar novos caminhos para contribuir com a qualidade no nosso entorno construído.

Você é um grande fã do projeto de Álvaro Siza para o Museu Iberê Camargo, em Porto Alegre.

Algo que distingue os grandes arquitetos é que, quando alcançam um certo nível de êxito, em vez de repetir a fórmula, usam essa confiança para começar de novo. É o que fez Siza nesse museu de Porto Alegre: se reinventou. Quando alguém acreditava que já sabia do que se tratava Siza, ele vem com essa peça, que além do mais é muito arriscada. Era muito difícil de sintetizar: tem curvas, retas, facetas, diagonais, o tipo de combinação que qualquer professor diz que está condenada ao fracasso. E provavelmente, nas mãos de qualquer um de nós, teria sido um desastre. Porém, ele conseguiu uma unidade e variedade, uma complexidade e simplicidade que só um mestre pode atingir.

O último arquiteto a ganhar o Pritzker foi o chinês Wang Shu. Você fez parte do júri. Gostaria de saber se a arquitetura chinesa de hoje está em desenvolvimento ou também se ressente da crise contemporânea.

Eu distinguiria entre crise disciplinar e crise econômica. Wang Shu é uma exceção na China, porque teve confiança suficiente para praticar um caminho quando todo o resto ia em direção oposta. Não pelo gosto de ser diferente, mas porque era o que lhe fazia mais sentido. As operações na China não seguem necessariamente o sentido comum, têm uma agenda mais propagandística. A importância do Pritzker a Wang Shu é demonstrar que a qualidade pode prevalecer sobre o oportunismo. A respeito da crise econômica, não me parece inteiramente negativa, obriga a definir prioridades. Claramente afeta as políticas sociais e os mais pobres tendem a ver-se afetados, mas também obriga as elites a focar-se. Nem tudo é possível, então deve prevalecer o que vem ao caso. Vejo a crise como um filtro contra a arbitrariedade.

Ao desenhar uma versão de uma cadeira indígena para a Vitra, você declarou que se tratava da “redução do problema a uma questão de forças, mais do que da forma”. Acha que a funcionalidade se sobrepõe à estética?

Um professor que considero um mestre, Fernando Perez, me ensinou que a arquitetura deve ser ao mesmo tempo um espelho e um manto. Se alguém se detém em uma obra de arquitetura, ela deve ser capaz de resistir a essa interrogação como um objeto cultural que é, incluindo-se a questão estética. Ao ponto de, como um espelho, refletir a época, a sociedade, o contexto em que foi criada. Ao mesmo tempo, tem de ser capaz de desaparecer completamente, e nos deixar levar tranquilamente nossa vida diária. Ele dizia que uma janela é um bom exemplo dessa dupla condição da arquitetura: é um elemento de linguagem arquitetônica que pode dizer muito da técnica disponível, de uma certa sensibilidade e certa estética. Ao mesmo tempo, o sentido último de uma janela é desaparecer para deixar passar o ar, a luz e a vista.

Os arquitetos brasileiros reclamam muito de uma invasão dos starchitects, como Calatrava, Zaha Hadid, Herzog & de Meuron.

Quando alguém teme a competência, é sinal de fragilidade. O protecionismo é falta de confiança em si mesmo. A discussão deveria estar centrada não na vinda de estrangeiros, mas na qualidade. Seria bom se no Brasil se usasse essa mesma energia crítica e resistência para questionar a baixíssima qualidade dos projetos imobiliários feitos pelos próprios brasileiros. São eles que armam, ou não, a qualidade das cidades.


ARQ.FUTURO
Segunda, 24, e terça, 25. Auditório Ibirapuera (Av. Pedro Álvares Cabral, s/nº, Pq. do Ibirapuera). Portão 3, 3629-1075.


Fonte: Estadão
Por Jotabê Medeiros – O Estado de S.Paulo

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s