Jaime Pinsky: São Paulo, cidade nacional

São Paulo é o maior destino turístico brasileiro. Para cá, afluem milhões de pessoas, brasileiros e estrangeiros, a cada ano. Ao contrário do que acontece em balneários, essa gente não fica parada nas inexistentes praias da Pauliceia, mas se locomove o tempo todo: eles compram roupas, frequentam livrarias, vão ao teatro, ao cinema e a concertos, buscam restaurantes, pizzarias e churrascarias, terminam a noite em baladas e acordam cedo para reuniões de trabalho, pretexto de muitos para virem a São Paulo.

Qual Nova York tupiniquim (nunca Miami ou Orlando, São Paulo é cidade séria), exerce papel civilizador, tanto em seus moradores, quanto entre os visitantes.

Única cidade nacional do Brasil (o Rio de Janeiro já o foi; Brasília é sede do poder, não uma cidade “natural”), São Paulo recebe e absorve brasileiros e estrangeiros, tratando a todos da mesma forma. Aqui, ninguém canta hinos regionais, nem bate no peito exaltando a identidade local. Antes de ser paulista, o paulistano é um brasileiro.

Pode parecer paradoxal, mas essa cidade de brancos e negros, italianos e japoneses, judeus e libaneses, coreanos e bolivianos, é a única grande cidade brasileira que temos. Por ter consciência de sua força, São Paulo não pergunta onde nascemos, de que Estado chegamos, qual é o nosso país de origem. E, por ser verdadeiramente nacional, São Paulo é acolhedora, a seu modo, pois permite que cada um mostre a que veio.

Problemas? Temos e muitos. Várias ruas, disputadas a buzinadas durante o dia, vão se tornando desertas à noite. Fora das artérias principais, tem-se a sensação de uma cidade fantasma, entregue aos vigilantes de quarteirão. Tanto os ricos quanto a classe média não caminham mais: saem do edifício em que moram e chegam ao serviço de automóvel. Não têm mais ideia de como é andar e descobrir nossa metrópole.

Não reparam no brilho das folhas das tipuanas e sibipirunas, nem ao menos sabem que jardins públicos e até algumas ruas mais arborizadas ostentam mangueiras, jabuticabeiras, pitangueiras e amoreiras, além de surpreendentes pés de café.

Poucos são os que notam os sabiás, bem-te-vis e sanhaços saltitando em busca de alimento. São Paulo tem hoje mais pássaros do que tinha há décadas, graças ao crescimento das árvores daqui e à utilização assassina de agrotóxicos nas plantações do entorno da metrópole.

A cidade é cordial, só não é falsa. Quando convidamos alguém para “aparecer”, marcamos data e horário. Aqui apenas os amigos são amigos e os conhecidos, conhecidos. Aqui ninguém é “meu rei”: somos todos cidadãos. Nada contra as cidades onde a efusão substitui a sinceridade, mas aqui somos sérios e responsáveis, evitamos promessas vãs.

São Paulo é trabalho, sim, mas também é cultura, é educação, é criatividade. É para cá que vêm aqueles que querem se testar, saber se fazem bem o que fazem. Aqui há mercado para as óbvias encenações de artistas de novela, mas também para o teatro do grupo Tapa, para shows monumentais de rock e para os concertos na Sala São Paulo, para o pastel de feira e para a gastronomia sofisticada.

De resto, São Paulo tem sorte em aniversariar em janeiro. As crianças ainda não voltaram para a escola, o que é bom para o trânsito. No fim da Idade Média, dizia-se que nas cidades é que se respirava o ar da liberdade. O dramaturgo grego Sófocles lembrava que não há nada mais fascinante para o ser humano do que o próprio homem. É por isso que nos juntamos em cidades. Apesar do trânsito, dos medos, dos preços altos, do transporte ineficiente, dos governantes incapazes, amamos as cidades. E São Paulo, esta cidade nacional, merece ser bem tratada por todos nós.


JAIME PINSKY é historiador e editor, professor titular aposentado da Universidade Estadual de Campinas e diretor da editora Contexto



Fonte: Folha de S. Paulo
Imagem: Thiago Kubo

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