10 Mulheres Desprestigiadas Pela História da Arquitetura

No dia da Mulher do ano passado – 2012 – eu escrevi um texto do papel das mulheres na Arquitetura e como ainda faltam direitos e reconhecimento. Esse ano o Archdaily Brasil publicou a materia abaixo que é bastante complementar ao texto publicado ano passado aqui no Ensaios Fragmentados. Vale a pena ler! 

Sei que eu estou um pouco atrasada, mas acredito que os dois textos mostram não somente o machismo que existiu e continua existindo na arquitetura, mas em todo o mundo e suas diversas facetas!


Ao ler a história da Arquitetura, você poderia ser perdoado por pensar que as mulheres foram uma invenção da década de 50 no ramo, mas isso está longe de ser verdade. Grandes nomes como Le Corbusier, Mies, Wright e Kahn, muitas vezes tinham igualmente inspiradores pares femininos, mas a estrutura rígida da sociedade fez com que suas contribuições fossem esquecidas. Em homenagem ao Dia Internacional da Mulher de 2013, apresentaremos brilhantes arquitetas que foram “desprestigiadas” pelos fatos históricos dentro da Arquitetura.
Confira toda a lista a seguir…

via ACSA

Sophia Hayden Bennett 
Nascida em 1869 em Santiago, Chile, de pai chileno e mãe americana, Sophia Hayden Benett foi a primeira mulher a receber um diploma de arquitetura, o qual ela recebeu do MIT em 1890. No entanto, infelizmente, o diploma não era garantia de trabalho e, após a busca incessante, Hayden Benett aceitou eventualmente um emprego de professora de desenho técnico em uma escola de Boston.
Em 1891, Hayden viu um anúncio que convocava arquitetas para se inscrever para o projeto do Edifício da Mulher, que seria parte da Columbian Exposition de Daniel Burnham em Chicago. A proposta de Hayden, baseada em seu trabalho de conclusão de curso, foi um edifício de três pavimentos no estilo renascentista italiano. Em meio a treze propostas, o júri escolheu seu projeto para ser construído. Com apenas 21 anos, Hayeden recebeu mil dólares por seu projeto, um décimo do que muitos arquitetos (homens) recebiam por um trabalho deste tipo.
Porém, a construção do edifício foi marcada pelo constante combate e compromissos demandados pelo comitê de construção. A experiência causou uma tensão tão grande em Hayden que ela surtou e foi colocada em um sanatório por um período forçado para seu descanso. O fato foi usado por muitos homens na época como prova de que mulheres não poderiam ser arquitetas.
via wikipedia


Marion Mahony Griffin
Marion Mahony Griffin não era apenas uma das primeiras arquitetas licenciadas do mundo, mas também a primeira a trabalhar para Frank Lloyd Wright.
Nascida em 1871, ela estudou arquitetura no Instituto de Tecnologia em Massachusetts. Após finalizar seus estudos, começou a trabalhar com seu primo em 1894, que passou a partilhar um edifício com outros arquitetos, inclusive Frank Lloyd Wright, quem contratou Mahony em 1895. Por ser sua primeira empregada, Mahony exerceu considerável influência no desenvolvimento do estilo Prairie, enquanto suas representações em aquarela se tornaram sinônimo da obra de Wright. Como era típico de Wright na época, ela não levou nenhum crédito por isso.
A parceira acabou em 1909 quando Wright foi para a Europa, o qual ofereceu as comissões de seu estúdio para Mahony que recusou. No entanto, ela foi contratada em seguida pelo sucessor de Wright, sob a condição de que teria todo o controle de seus projetos.
Em 1911, casou-se com Walter Burley Griffin, que também trabalhou com Wright. Os dois determinaram uma prática juntos e, não muito depois, venceram o concurso para projetar a nova capital australiana, Canberra. Mudaram-se para a Austrália para supervisionar o projeto e, logo em seguida, mudaram-se para a a Índia onde continuaram a trabalhar até a morte de Griffin em 1939. Após o falecimento de seu marido, Mahony encerrou sua carreira de arquiteta e veio a falecer em 1961.
Cortesia de Christie’s


Eileen Gray
Eileen Gray nasceu em uma família aristocrática em Enniscorthy, Irlanda, em 1878. Após estudar arte em Londres, Gray mudou-se para Paris em 1902 para continuar seus estudos.
Por ter estudado sobre o trabalho com laca em Soho, Gray montou um estúdio com um artesão japonês, Seizo Sugawara, para aperfeiçoar suas habilidades. Seus objetos domésticos em laca ganharam destaque e ela foi rapidamente trabalhando no ramo para clientes mais ricos. Seus designs foram conhecidos por serem arquitetônicos, nos quais ela usava superfícies de laca para dividir os espaços e atenuar as diferenças entre mobiliário e arquitetura.
Sua experiência com design de interiores resultou no projeto de uma casa de férias no sul da França com seu amado, Jean Badovici. Gray usou a casa, chamada E-1027, como um teste para experimentar seus projetos de mobiliários, muitos dos quais se tornaram icônicos desde então. Após sua separação com Badovici, Gray se sentiu distante da casa. Porém, uma pessoa se sentia muito atraída por este projeto, era Le Corbusier.  Fascinado pela E-1027, ele construiu uma pequena casa para si mesmo, na qual ele foi tão longe a ponto de pintar murais nas paredes sem a permissão de Gray. Foi perto desta casa que Le Corbusier faleceu.
Gray dedicou o resto de sua vida para projetos arquitetônicos: em 1937, seus projetos para um centro de férias foram destaque no pavilhão do Esprit Nouveau de Le Corbusier na Exposição de Paris. No entanto, ela se distanciou da comunidade e concluiu apenas outros dois projetos, ambos desenvolvidos para si mesma, mas que nunca foram construídos. No final dos anos 1960, suas obras se tornaram amplamente conhecidas. Faleceu em 1976.
Atualmente há uma exposição no Centre Pompidou, em Paris, com o objetivo de restabelecer a reputação de Gray como um dos ícones centrais do modernismo ao lado de Le Corbusier e Mies Van der Rohe.
via rauminhalt


Lilly Reich
Muitas das obras famosas de Mies Van der Rohe, particularmente na área do design de interiores, não seriam possíveis sem esta mulher. É dito que Mies raramente pedia a opinião de outras pessoas, mas sempre escutou o que ela dizia.
Nascida em Junho de 1885 em Berlim, Reich mudou-se para Viena após completar seus estudos do primeiro grau para aprender a ser uma espécie de costureira industrial. Ao retornar para Berlim em 1911, trabalhou como designer de moda e de mobiliário e se uniu aDeutscher Werkbund – uma organização alemã de trabalho – tornando-se a primeira diretora em 1920.
Seu trabalho como uma designer levou-a a Frankfurt, onde ela conheceu Mies Van der Rohe. Os dois se tornaram muito próximos e ela começou a trabalhar em seu escritório. Em 1928, os dois foram apontados como diretores artísticos do pavilhão alemão para a Exposição Mundial de Barcelona, o que resultou no icônico pavilhão de Mies, considerado como uma das obras mais emblemáticas e definidoras do modernismo. Logo após isto, Mies indicou Reich como diretora de construção/detalhamento na escola Bauhaus, da qual ele era responsável na época. O trabalho de Reich foi encerrado muito brevemente pois a escola foi fechada em 1933 devido ao movimento nacional socialista.
No período da guerra, Reich fez pequenos trabalhos que, por fim, seus 12 anos de parceria com Mies a levaram para a América em 1937. Ela permaneceu responsável pelos negócios do arquiteto alemão e conseguiu salvar mais de 4000 desenhos de Mies, os quais ela conseguiu contrabandear para um celeiro fora da cidade de Berlim, evitando que fossem perdidos em meio aos bombardeios. No entanto, em 1939, seu estúdio foi bombardeado e ela foi recrutada para um trabalho forçado no qual permaneceu até 1945.
Após o período de guerra, aceitou um emprego para lecionar sobre design de interiores e edificação na Universidade de Artes de Berlim. Ela também participou de encontros para tentar reviver a Werkbund, mas faleceu em 1947, três anos antes da organização ser legalizada.
Via The Lost Innocence


Charlotte Perriand
Ao estudar design de mobiliário em Paris, Charlotte Perriand se candidatou a uma vaga no escritório de Le Corbusier em 1927. Ele a descartou dizendo: “Nós não bordamos almofadas aqui“. No entanto, quando ela foi convidada para expor sua reforma de um apartamento no Salon d’Automne, Le Corbusier percebeu seu trabalho – ficou tão impressionado que ofereceu a ela um trabalho.
Um ano após ingressar no escritório de Le Corbusier, Perriand projetou três das cadeiras mais icônicas, a B301, B306 e a LC2 Grand Comfort, agregando um pouco de caráter humano à obra racional do arquiteto.
Conforme a opinião de Perriand foi tornando-se policamente de esquerda nos anos 1930, ela foi se envolvendo em muitas organizações de esquerda, fundando a Union des Artists Moderns em 1937. Simultaneamente, seus projetos começaram a ser mais acessíveis economicamente, usando madeira ao invés de superfícies cromadas. Ela começou a desenvolver móveis funcionais e baratos para as massas.
Em 1940, Perriand foi convidada para ir ao Japão para se tornar uma conselheira do Ministério do Comércio e da Indústria. Dois anos depois ela foi forçada a deixar o país devido à guerra. Apesar de retornar à Europa, ela foi detida por um bloqueio naval e forçadamente exilada no Vietnã. Lá, ela estudou design oriental, inclusive trabalhos de tecelagem e madeira, o que teve, mais tarde, grande impacto em sua obra.
Cortesia de RIBA British Architectural Library Photographs Collection (1987)


Jane Drew
Jane Drew foi uma precursora do Modernismo na Inglaterra e responsável por convencer Le Corbusier a trabalhar na Índia.
Arquiteta e planejadora urbana, estudou pela AA em Londres e se tornou uma das principais fundadoras do MARS – um movimento modernista inglês baseado no CIAM de Le Corbusier – da qual a missão era “usar o espaço para atividades humanas ao invés da manipulação de convenções estilizadas“.
Ao começar – no começo composto apenas por mulheres – escritório em Londres durante a guerra, Drew trabalhou em uma série de grandes projetos pela cidade, eventualmente entrando em parcerias com seu marido, Maxwell Fry. De acordo com as teorias de Drew, uma parte significativa de seus projetos consistia em moradias acessíveis na Inglaterra, no oeste da África e no Irã.
Através do reconhecimento de sua obra no oeste da África, Drew foi convidada pelo Primeiro Ministro Indiano para projetar a nova capital de Punjab. Não segura de sua habilidade para se responsabilizar de tamanho projeto, pois no momento Drew estava desenhando moradias para o festival britânico, ela foi convencida por seu amigo modernista, Le Corbusier, a contribuir com o projeto, no qual os dois colaboraram de perto com outros arquitetos. Drew usou a cidade para experimentar novas estratégias de moradias com consciência social, o que afetou o projeto de moradias por toda a Índia.
via Ser Sustentavel Com Estilo


Completando a grande maioria de seu trabalho no Brasil pós-guerra, apesar de extremamente famosa no nosso país, a arquiteta italiana Lina Bo Bardi foi ofuscada no mundo pela obra futurista de seus pares, como Oscar Niemeyer. No entanto, ficou famosa por elaborar projetos onde protagonizam os usuários dos espaços criando  uma arquitetura que é amada por seus habitantes.
Nascida em 1914, Lina se formou na Escola de Arquitetura de Roma em 1939. Após sua graduação, ela se mudou para Milão onde começou sua prática em 1942; no entanto, mais tarde seu escritório foi destruído por um ataque aéreo. Isto, combinado com a falta de encomendas devido à guerra, causou-lhe explorar outras áreas de seu trabalho, e em 1943 ela foi convidada para se tornar diretora da revista Domus.
Bo Bardi se mudou para o Brasil em 1946, onde se tornou uma cidadã naturalizada cinco anos depois. Em 1947, foi convidada para criar o Assis Chateaubriand Museu de Arte de São Paulo (MASP), que se tornou um dos museus mais importantes da América Latina. Seus projetos tinham muitos elementos radicais, incluindo o que são consideradas as primeiras cadeiras modernas do Brasil.
Em 1948, ela criou o Studio d’Arte Palma com outro arquiteto italiano, que buscava a concepção de mobiliário de madeira compensada e materiais “típicos” brasileiros. Em 1951, ela completou a Casa de Vidro, a sua residência privada, que se tornou uma peça central do modernismo no Brasil. Em 1958, recebeu um convite para se mudar para Salvador para executar o Museu de Arte Moderna da Bahia, ao retornar a São Paulo depois de um golpe militar, em 1964, seu trabalho passou a uma grande simplificação, tornando-se o que ela descreveu a si mesma como “arquitetura pobre“.

Leia também: Arquitetura de palavras: a escrita livre e exata de Lina Bo Bardi – Artigo do arquiteto Marcelo Ferraz do escritório Brasil Arquitetura. 

via philly.com


Anne Tyng
Uma teórica de destaque do século XX, Anne Tyng foi peça fundamental para os projetos de Louis Kahn, com quem ela teve uma filha.
Nasceu na China na década de 1920 e em 1942, tornou-se a primeira mulher a ser adimitida na Escola de Design de Harvard, onde teve aulas com Walter Gropius.
Após finalizar seus estudos, ela continuou a trabalhar para alguns escritórios em Nova York até se mudar para Filadélfia e, então, fazer parte do escritório de Kahn, Stonorov & Kahn. Quando o escritório se dividiu em 1947, ela continuou com Kahn. Embora nunca tenha projetado um edifício sozinha, graças à sua grande fascinação por geometria, tornou-se uma crítica da obra de Kahn. Alguns a descreviam como sua musa, Buckminster Fuller preferia chamá-la de “estrategista geométrica de Kahn”. Muitos dos projetos de Kahn retratam a influência de Tyng, como a casa Treton e a Yale Art Gallery, destacando a “City Tower” que foi praticamente de autoria de Tyng.
via blackpast.org


Norma Merrick Sklarek
Norma Merrick Sklarek foi uma mulher de pulso firme. Ela era a primeira afro-americana a possuir um diploma de arquitetura, a primeira a receber uma licença na Califórnia e a primeira mulher afro-americana a ser escolhida como um membro do Instituto Americano de Arquitetos.
Nascida em Harlem no ano de 1926, Norma Merrick Sklarek teve dificuldade em encontrar trabalho em escritórios na cidade de Nova York, apesar de seu diploma da Universidade de Columbia, Como ela disse: “Não estão contratando mulheres ou afro-americanos, e eu não sabia qual eram os motivos [que estavam agindo contra mim].” Eventualmente, ela conquistou um trabalho em Skidmore Owings & Merill.
Em 1960, ela se mudou para a Califórnia para trabalhar no Gruen Associates. Apesar da pressão que ela sofria por ser mulher e por sua etnia, ela cresceu rapidamente e foi nomeada diretora da empresa em 1966. Sklarek ganhou reputação como uma excelente arquiteta de projeto, concluindo imensos projetos complexos, como o LAX Terminal 1 e a Embaixada dos Estados Unidos em Tóquio, cumprindo o prazo estipulado e abaixo do orçamento.
Ela deixou o Gruen Associates em 1980 e, em seguida, co-fundou o Sklarek, Siegel and Diamond, que se tornou o maior escritório de arquitetura do país apenas com mulheres.
© Frank Hanswijk


Denise Scott Browne
Denise Scott Brown, junto com seu parceiro de Robert Venturi, teve uma enorme influência sobre o desenvolvimento do projeto arquitetônico, durante o século XX. Suas críticas são creditadas com a mudança na forma como muitos arquitetos e urbanistas olhavam para o modernismo e o desenho urbano em meados deste século. Muitos ficaram surpresos quando o marido foi galardoado com o Prêmio Pritzker em 1991, e ela não conseguiu receber uma menção.
Nascida em 1931, em Northern Rhodesia, Scott Browne estudou na África do Sul e depois em Londres. Em 1958, mudou-se para Filadélfia com seu primeiro marido, Robert Scott Browne, que morreu em um acidente de carro um ano depois.
Em 1960, Scott Browne concluiu seu mestrado em planejamento na Universidade da Filadélfia, onde ela se tornou um membro da faculdade, concluindo uma pós-graduação em Arquitetura logo em seguida. Foi neste momento que ela conheceu seu segundo marido e futuro parceiro, Robert Venturi.
Browne viajou por muito tempo com o intuito de estudar, o que provocou seu interesse nas jovens cidades de Los Angeles e Las Vegas. Ao retornar para Filadélfia para fazer parte do escritório de seu marido, em 1967, ela foi promovida a diretora de planejamento em 1969. Influenciando Venturi e o urbanista Steven Izenour com seu interesse por Las Vegas, a produzirem o livro “Aprendendo com Las Vegas“.
Fonte: Archdaily

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