Negue-se a calar-se!

Passe-Livre-cidade

trombone2

Texto do arquiteto Bruno Breda,

Tempos turbulentos! Enquanto recebíamos notícias do outro lado do meridiano sobre as manifestações públicas levantando-se contra os governos, aqui no Brasil tudo era samba e embaixadinhas, como mandava o script dos manda chuvas.

Copa e Olimpíadas chegando  e o bolo enfeitado para mostrar para os gringos:  Já está quase pronto. Foi difícil decorá-lo, fazer uma boa maquiagem no país à base de força pública agindo de acordo com ordens higienistas do Grande Irmão.  “Soltem os cães!”, ele ordena. Com equipamentos reluzentes novinhos em folha, a matilha de cães raivosos muito bem adestrados corre para pegar seus alvos.

Mas eis que a cereja desse bolo começa a causar uma avalanche no chantilly que o Grande Irmão quer saborear. Os tais R$0,20 acabarão lhe custando muito mais do que imaginara. Como se já não bastasse escravizar a população elevando os custos de moradia através da especulação imobiliária do mercadossaurus rex, o gasto do cidadão com transporte eleva-se mais uma vez sem trazer qualquer retorno qualitativo para esse serviço urbano básico.

Quando se fala em aumento da tarifa do transporte público, não se trata apenas de “míseros” centavos. O que esta em jogo é o direito de ir e vir da maior parte da população brasileira. O aumenta da tarifa, a exemplo da cidade de São Paulo, fará com que o custo do trabalhador paulistano com condução será pouco mais que 20% de um salário mínimo. Cada aumento na tarifa significa mais cidadãos excluídos da infraestrutura de transporte coletivo, o que é incabível dada à expansão da megalópole em referência. Pensemos:  Como faz o trabalhador informal que mora nas regiões periféricas da grande São Paulo para acessar equipamentos públicos do qual depende e que nãos existem próximo de suas casas, como hospitais, centros de formação, centros culturais, parques, etc.

Isso é mais um sintoma do beneficiamento das esferas corporativas e do transporte individual. Imagine só que sistema de transporte coletivo não teríamos se nele fosse empregada ao menos metade dos recursos de grandes obras viárias como pontes estaiadas, túneis e avenidas (os quais é vetada a circulação de ônibus).

Esses vinte centavos representam também a priorização dos interesses financeiros das companhias de viação em detrimento dos valores humanos. Somos governados por líderes que não têm pulso firme para fazer uma quebra de contrato com empresas que já lucram quase três vezes mais que o permitido pela constituição.

Não se trata de jovens de classe média rebeldes sem causa, como disse o “excelente formador de opinião”, senhor Arnaldo Jabor, que acaba de se retratar pela rádio CBN. Trata-se de um grupo de pessoas que acordaram e estão fartas da ditadura do capital. Pessoas que estavam dispersas, mas que conseguiram se encontrar e se organizar. Para o pesadelo de muita gente, os “loucos” estão botando a boca no trombone ao mesmo tempo em que são tomados por um sentimento de união que mostra cruzar fronteiras cada vez mais distantes.  Todos estão percebendo que nossa sociedade esta sendo regida por uma máquina que nos trata apenas como grandes sacos de carne, ossos e fezes.

A todos os manifestantes pacíficos que vão às ruas, só temos a agradecê-los, pois vão representar uma boa parte da população que não pode comparecer às ruas, pois estão sobrevivendo a um sistema sanguessuga, e consequentemente não podem dar-se ao luxo de gastar a sua energia para dar a cara a tapa. Justamente por isso o ato nas ruas não é maior ainda, pois muitos não podem ir às ruas, mas nem por isso deixam de integrar seu apoio, opinião e voz ao movimento.

Vamos às ruas sim! Mas lembremos que ir às ruas não é só ir em manifestações. Protestar nas ruas é usar a rua, usar o parque, usar os espaços públicos, pelos quais pagamos pela conservação. Ir às ruas é ser a cidade! É se negar a trancafiar-se em condomínios que restringem cada vez mais a definição de espaços coletivos a bolhas artificiais do tipo “Maison Royal Park”, ou seja lá o que for. Ir às ruas é espalhar cultura nos espaços públicos ao invés de resumir a ideia de lazer a pegar filas enormes na porta da balada e pagar R$50,00 para ouvir música ruim, ou se acotovelar em calçadas em frente ao bar com um copo de cerveja.

As manifestações em massa são nas ruas. Mas o protesto é uma postura, é um modo de vida, que não aceita nada que for pasteurizado, nada que venha goela abaixo. Tão importante quanto ir às ruas, é espantar a ignorância moral através do argumento e da opinião respeitosa. Quando ouvirmos novamente o velho pensamento provinciano pronunciar-se , repetindo a mesma nota do vandalismo incessantemente, lembremos que essas pessoas são vítimas. Estão hipnotizadas pelo chocalho da cascavel e nem ouvem o que estão dizendo. A informação é o protesto, e o protesto se torna o antídoto para a víbora que nos envenena com essa  mesmice atrofiante que não aguentamos mais.

Negue-se a calar-se. Não são apenas vinte centavos. São os meses que trabalhamos por ano apenas para pagar impostos. É a repressão da mão de ferro da força pública comandada pelo Estado que veta nosso exercício de livre expressão. É falta de qualidade nos equipamentos público, que não chegam nem perto da dignidade que deveriam ter se fôssemos cuidados por um governo feito para as pessoas. É a maldita companhia telefônica que deita e rola cobrando absurdos por péssimos serviços, controlando o acesso à informação. É a sádica grande mídia que apresenta todo dia em sua programação uma bizarra caricatura de um povo desfalecido intelectualmente. É o triste fim dos necessitados desse país que trabalham uma vida inteira para manter um Estado que os larga em filas quilométricas no INSS.

Hoje o aumento da tarifa é o pretexto do protesto. Mas o que o mundo pede é dignidade, é humanidade, respeito e amor.  Como já dizia Emicida: “a rua é nóis, é nós!”

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