São Paulo, em corte

Fotos de André Cepeda. Texto de Agnaldo Farias

Publicado originalmente na Revista ZUM 4

acepeda011 acepeda012acepeda010 acepeda04acepeda06 acepeda09acepeda05acepeda07 acepeda014acepeda08acepeda013 acepeda02

Com amor e sordidez

Foram três meses perambulando pela cidade, com tripé e câmera nas costas, exausto do peso de ver, no labirinto dos labirintos: São Paulo, que ninguém ousa dizer que conhece, uma abstração até para quem nela nasceu e vive, para os taxistas, que ou não se arriscam por algumas zonas da cidade, ou nelas só se lançam guiados pelos batedores impressos e eletrônicos, os guias de ruas e aparelhos de GPS, cujo tom objetivo e sentencioso encobre a ignorância dos detalhes, nessa monstruosa e magnífica construção constituída de detalhes.

Diversamente das cidades europeias, com as quais o português André Cepeda tem lá sua intimidade, São Paulo é um compósito de matérias, tempos e espaços. Não prevalece plano, lógica ou ordem arquitetônica, nada a não ser a sobreposição de sobras, cada uma compondo o ruído branco da confusão, o som ininterrupto da máquina de construir e destruir, pródiga em negociações mal-ajambradas, como na imagem de uma empena cega e suja, a traseira abrutalhada de uma edificação qualquer, em que vêm se grudar, por intermédio da geometria mambembe do piche isolante, três construções capengas. A imagem não se reduz à matéria sórdida da metrópole, é notável o apuro cromático, a delicadeza da composição, as gradações do azul-acinzentado das paredes, das telhas de amianto e das calhas de alumínio, um fluxo sóbrio interrompido por filamentos vermelhos sutis, cor que aparece com ênfase na parede de tijolos cerâmicos.

O artista faz o inventário dos pormenores, invisíveis em sua maioria, e descobre uma São Paulo magnífica, como a fruta apodrecida sobre a mesa. A luz amarela desprende da pele ulcerada desse pequeno mundo estertorante em duas tonalidades de ouro: a mais clara pertence à superfície que ainda resta madura; a mais escura, um ouro-velho, provém das escaras que nela vão se abrindo. Aqui e ali afloram os brancos bordados dos mofos.

Do íntimo ao máximo, da morte à celebração do poder, o artista recorta a antiga sede do Banespa, orgulho da engenharia local e dos paulistas, que foi por quase 20 anos o edifício mais alto da cidade. Em sua investigação obsessiva, que inclui novos pontos de vista, Cepeda subiu num prédio vizinho para construir a imagem de um arranha-céu sem limites, eficaz no modo como se impõe à massa liliputiana que lhe serve de fundo. O amarelo ganha a estridência própria à aplicação de mertiolate, e a paisagem urbana reduz-se a um conjunto revestido por uma pátina ferruginosa, da qual se eleva uma nuvem de poeira, bela como a atmosfera dos planetas inabitáveis.

Nesta mesma cidade, há um pequeno ninho de corujas cavado no chão. Uma surpresa amplificada pelo modo característico como elas miram o fotógrafo. Mais ainda porque são seis olhos, três corujas, uma delas filhote. Prova de que a vida segue seu curso, ainda que contida, calada, como a árvore com raízes recobertas por um manto de cimento, impedida de beber as águas das chuvas, mesmo quando correm abundantes e desenfreadas pelas ruas encapadas, ou quando transbordam dos rios e regatos que despertam nas temíveis tempestades de verão. A essa sistemática clausura da natureza corresponde a irisada variedade de fachadas cegas, grades, guaritas, gradis, cercas e muros. São Paulo é das cidades que mais contribuem com soluções de proteção e segurança, que só aumentam o sentimento de insegurança.

Às vezes, a vida chega em versões alegóricas, como a copa da palmeira no cimo de uma fachada cor-de-rosa, que progride em dégradé até o azul. Em outra imagem, a palmeira, agora in natura, estabelece um diálogo imprevisto: um cacho preguiçoso de frutos cor de cobre reverbera no rosa fechado e cinza das fatias de pedra que revestem um edifício, quebrando, com sua luz e sombra, a regularidade do desenho.

São Paulo é seus habitantes, cada um deles inescrutável como as vistas e os fragmentos da cidade, do tijolo corroído aos pátios silenciosos, à igreja que sobrevive encaixada entre os prédios altos. Com seu halo de mistério, o homem sério nos fita com um olho enquanto o outro está submerso na penumbra. O roxo-escuro da camisa e a iluminação lateral acentuam sua presença compacta, ao mesmo tempo em que reforçam os traços do rosto, os fios grossos do cabelo grisalho, e irradiam pelas paredes do quarto, indicando a imantação recíproca entre ele e o ambiente. Como acontece com a cidade lá fora.

acepeda03

Agnaldo Farias é curador, crítico de arte e professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP.

André Cepeda (1976), fotógrafo, nasceu em Coimbra. Vive e trabalha no Porto.

 

Fonte: Revista de Fotografia Zum

 

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s