Grande Centro Cultural sem vida ou Pequeno Centro Cultural de Bairro sempre cheio??

Aquela coisa bem europeia que nós, arquitetos brasileiros amamos (por muito tempo), de criação de grandes Centros Culturais, Museus, Centros Cívicos, etc… com arquitetura contemporânea de qualidade, de preferência, com assinatura de algum “Stararchitect” já não ocorre mais em momentos de crise econômica.

O boom do crescimento europeu nas décadas passadas e a inversão de capital (os Fundos Europeus) em diversos tipos de construção facilitavam a promoção de concursos de arquitetura para qualquer coisa- qualquer coisa mesmo- e transformavam espaços que deveriam ser pequenos, compactos, “do bairro”, em grandes monumentos, por muitas vezes desproporcionais e sem qualquer necessidade.

Um caso típico é o “Ciudad de la Cultura de Galícia“, na cidade de Santiago de Compostela. Muitas críticas foram levantadas por causa deste projeto colossal do Eisenman. Seria um centro para concentrar todo o acervo sobre a cultura da Comunidade Autônoma de Galícia, mas tem um tamanho tão bestial, em proporção à pequena cidade, que dificilmente conseguirá ser ocupado por completo e terá uma gestão eficiente. Se você não conhece o centro, veja mais aqui.

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Ciudad de la Cultura de Galícia – Foto: Helo Barbeiro

 

Mas a crise econômica não consegue mais pagar por tais infraestruturas… E aí entra a história do “Centro Social Autogestionado La Tabacalera” em Madri. Para resumir uma granddeee história:

Trata-se de um edifício no bairro de Lavapies em Madri, que estava abandonado e sem uso e que servia, de maneira mais improvisada, como um centro cívico do bairro. Em um primeiro momento (ainda pré-crise econômica) viu-se o potencial do local e criou-se um concurso de arquitetura super mega master para reativar o espaço, mas aí….veio a crise… e nada foi feito!

 

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Concurso para o Centro La Tabacalera – Fonte: Site do Centro

 

Nada foi feito?

Pelo contrário! Diversos grupos de artistas, moradores do bairro, músicos, etc, tomaram o espaço e reativaram com as próprias mãos, por meio da AUTO-GESTÃO:

La Tabacalera es un centro social autogestionado: un espacio donde hay teatro, música, danza, pintura, conferencias, reuniones, audiovisuales, talleres, eventos, intervenciones en el barrio…  Intentamos que ninguna actividad predomine sobre otras, y que el carácter colectivo, público y de transformación social esté presente en todas ellas.

 

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Ao invés de gastar 30 milhões de euros para reconstrução do edifício, a organização de diversos grupos realmente deram vida ao local, sem gastar um centavo sequer… bem diferente do que ocorreu em Galícia, não? Além disso, virou um espaço de referência para toda a cidade, mais espontâneo, mais verdadeiro, mais real!

Outro exemplo interessante foi postado pelo Glück Project sobre a retomada de espaços culturais em Berlim, no pós guerra, e também na cidade de São Paulo, em edifícios desocupados do centro da cidade. Veja mais aqui.

 

Isso faz com que nós, arquitetos em geral, tenhamos que refletir sobre o papel da arquitetura na criação de espaços de interesse… Será que realmente precisamos de grandes centros culturais? Será que pequenos centros de bairro, com bom uso e gestão, não seriam mais interessante – do que gastar milhões em arquitetura contemporânea, que serve para irmos, tirarmos fotos, e deixar o lugar sem nem realmente usufruir de seus eventos?

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