Por que eu quis estudar Arquitetura?

Sei que o Ensaios Fragmentados não é bem um “blog diário”, é mais bem um blog que coleciona ideias, projetos, pontos de vista, opiniões, etc. No entanto, acho importante escrever minha experiência pessoal pela escolha da carreira, porque acredito que várias pessoas possam se identificar, inclusive, poderia ajudar na escolha da profissão para aqueles que ainda não tem bem definido o rumo a tomar (um pouco de presunção, mas tudo bem)!

Pois bem, não posso dizer que já sabia que queria ser arquiteta desde criança. Inclusive eu invejo minha amiga mais antiga que, já com uns 5 ou 6 anos, sabia que queria ser jornalista (e de fato é, e das boas)! Na verdade eu nem pensava muito nisso… Somente em algumas ocasiões me vinha super claro e eu sabia exatamente que queria mesmo ser prefeita! Mas não prefeita de uma cidade qualquer, eu queria ser prefeita da minha cidade; de São Paulo.

Era um desejo que eu não compartilhava e que geralmente me ocorria quando estava sentada no banco de trás do carro no trajeto Zona Sul a extremo da Zona Leste, indo para a casa dos meus avós. Era uma viagem que parecia interminável; acho que são mais de 50 quilómetros!!

Nestas viagens eu ia olhando a cidade… quilómetros e quilómetros da cor cinza! Eu não entendia porque tudo tinha que ser cinza.
“Pai, por que as pontes todas são cinzas? E por que o asfalto é cinza? Por que não tem muitas árvores? E por que o rio não pode usar, tá sujo?”
Meu pai respondia que “o concreto é cinza e tem poucas árvores porque a cidade tem muita poluição, que contamina também o rio”. Simples e direto. Mas, mesmo assim, eu não deixava de pensar que, quando eu fosse prefeita, eu pintaria uma ponte de cada cor, que, até lá já haveriam inventado uma substância para tirar a poluição do ar e dos rios e que aí daria para ter várias árvores por toda a cidade! Ahhh, quando eu fosse prefeita, tudo seria diferente!

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Eu cresci e esse negócio de política saiu da minha cabeça (não sou carismática e tampouco tenho sangue frio para isso). Na hora de resolver que rumo profissional tomar, diversas opções passaram pela minha cabeça, inclusive arquitetura. Contudo, arquitetura vinha à mente num sentido muito mais de projeto, de poder estar desenhando, um lado mais artístico do que como poder solucionar todas aqueles problemas que eu já via na cidade quando eu era criança! Aliás, quando adolescente (ou pré-adulta) essas questões nem me preocupavam mais, porque era o momento de disfrutar da juventude e não de se preocupar com os problemas da cidade…

Só que meu pai sempre me desincentivou: “Arquiteto tudo morre de fome!” Em parte é verdade, mas eu achava que comigo seria diferente. Que eu seria daquelas arquitetas que desenham vários edifícios mundo a fora. Sim, os arquitetos tem um ego deste tamanho (neste ponto coincidimos com os políticos)!

Contrariando meu pai, entrei na faculdade de Arquitetura e Urbanismo. Começamos a estudar as principais obras e os principais arquitetos e aí eu descobri que tudo tinha voltado a ser cinza! “Como assim???” eu pensava. Pois é! A arquitetura moderna paulistana usava aquele material que só pode ter uma cor; o concreto!

Lógico, que depois de muito estudar, o uso do concreto passou a fazer sentido e se tornar belo para mim, mas o que retornava da minha infância eram as outras questões: “Por que a cidade não tem árvores?!” “Por que o rio é sujo?!” e se somavam novas questões que passaram a fazer parte da minha vida cotidiana: “Por que eu demoro 1 hora e meia para chegar todos os dias à faculdade?!”, “Por que tem gente que não pode, sequer, ter um teto sobre a cabeça?!” “Por que São Paulo está do jeito que está?!”

Aí a Faculdade de Arquitetura e Urbanismo começou a fazer todo o sentido para mim! A resposta estava lá, era só estudar, só aprender e só ver que era possível, apesar de não parecer!

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Aí fui fazer um intercambio na Espanha. Isto abriu meu olhar para estudar, de fato, as cidades. As cidades lá eram muito mais próximas de seus cidadãos e tudo parecia mais bonito, mais verdes, mais agradável e mais perto!

A qualidade de vida que tive morando lá era incomparável com a que eu tinha em São Paulo. Apesar de estar longe dos amigos, familiares e namorado, eu era feliz! A cidade me proporcionava FELIZ-CIDADE! Sim, a presença de parques por todos os lados, a não necessidade de estar presa no trânsito por existir um transporte coletivo e público eficiente, a segurança de caminhar nas ruas a qualquer hora (sem ninguém mexer com você – apesar de ser mulher , ou mesmo sendo mulher) trazia a tona tudo que eu questionava quando criança sobre a minha cidade.

Minha relação com as cidades europeias foi tão intensa que além de estar mais feliz, eu estava mais bonita, mais magra, mais amigável. Como a relação com uma cidade podia mudar a minha forma de viver??

O simples fato de poder fazer quase tudo caminhando fazia com que eu me exercitasse sem perceber! Por ter mais segurança nas ruas, eu podia usar as roupas que eu queria sem pensar que poderiam me assediar ou mesmo me roubar! Ao invés de ficar trancada em casa, sempre, há 10 minutos, havia um parque para um picnic com os amigos… tudo parecia bem melhor…

Aí eu voltei para São Paulo.

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“Se lá é possível, por que em São Paulo não é?”

Essa foi a frase que fez que com que eu mudasse o rumo em que eu via a faculdade e passasse a querer estudar urbanismo.

Projetos de casinhas já me pareciam tão simples e tontos, se comparados com os diversos problemas que precisamos enfrentar na nossa cidade, que eu achava, inclusive, que a faculdade deveria se chamar Urbanismo e Arquitetura, já que o segundo é resultado do primeiro.

Com o urbanismo eu me encontrei profissionalmente e pude acalmar as inquietudes daquela menininha sentada no banco de trás do carro. Não precisei ser política, mas como profissional (e também como cidadã) tento resolver, ou pelo menos, discutir, os problemas da minha cidade!

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Conte você também porque quis estudar Arquitetura e Urbanismo e publicaremos aqui no Ensaios Fragmentados!

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