O tempo de Lina

Por Maria Raquel Rangel

05 de Dezembro, a Arquiteta da arquitetura completa e cheia de significados. Preenchida de poesia, com as técnicas executadas com esmero. Arquiteta essa que nos enche de inspiração e deixou um legado. Centenário Lina Bo Bardi.

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Lina Bo Bardi na obra do MASP [1960 – Instituto Lina Bo e P.M Bardi/Reprodução]

O tempo de Lina ¹

“(…) todas elas imagens poéticas de um tempo colapso e revolucionado enquanto transtornado; são mônadas que tendem ao infinito e ao todo. Esse é o âmbito de compreensão que assume a obra de Lina, aberta, e ao mesmo tempo concisa, que já traz em si todo o tempo, como se toda a obra pudesse ser comprimida em um só instante e lugar: naquela trama nervosa de fios que constitui esse único e maravilhoso emaranhado.“. [2]

Lina através de sua arquitetura que valoriza a simplicidade, a espontaneidade, o residual e o efêmero, nos mostra a arquitetura entendida como “organismo apto para a vida”, que retrata principalmente a vida cotidiana e a energia das pessoas que a utilizam. Por isso empregou o termo substâncias em vez de materiais, para explicar do que era feita a sua arquitetura – de ar, luz, natureza e arte -, aos qual a autora Olivia de Oliveira, 2006, acrescenta o tempo.

As quatro substâncias da arquitetura da Lina, citadas anteriormente – ar, luz, natureza e arte – estão intimamente associadas à noção de tempo por ela formulada; “um tempo colapso, vital e aberto ao indeterminado. Cada das substâncias, em realidade, explica e reitera essa noção de tempo.”. Olivia, então retoma a ideia já apresentada ao longo do livro: através de elementos singulares, que saltam aos nossos olhos e diferenciam a compreensão e produção da arquitetura de Lina, nos é apresentada a imagem do tempo assim concretizada, de modo que as percepções individuais dos lugares trazem esses elementos à arquitetura. Exemplos disso são os elementos de transição e passagem vistos no projeto do SESC Pompéia, ou mesmo o “rio” que Lina faz ressurgir do passado e correr no presente. Deste modo “englobando conceitos de concentração e de superação de fronteiras, de narração e sobrevivência, de revolução e subversão, sendo eles mesmos imagens do tempo”.

Oliveira refere-se a três dimensões de tempo em Lina: “o tempo enquanto relação com o passado; o tempo enquanto percepção e movimento no espaço; o tempo enquanto a quinta substância, ou melhor, a quinta-essência de sua arquitetura”.

Vejamos primeiro o tempo enquanto relação com o passado, o que traz fortemente a atitude de Lina perante a história. Trata-se de um dos principais marcos da contextualização do projeto do Sesc Pompéia, pois, a iniciativa de manter a fábrica de tambores e associar as atividades recorrentes que observou em suas visitas são princípios que estão intimamente relacionados com a memória e as marcas deixadas e produzidas pelas vivências que ali se deram.

Faz-se o passado vivo, colocado à disposição pela memória pessoal. É por meio da memória que se recria o lugar do imaginário e de reconstrução da nossa condição de seres históricos. Ao projetar sua memória na consolidação de projetos, Lina traz o tempo concebido historicamente, como por exemplo, no Masp, no muro-relato da casa do Chame-Chame ou mesmo no Sesc, Lina evidencia essa memória à disposição do homem.

Lina demonstra a memória como um instrumento dos homens não alienados, memória está que estará ligada ao coletivo, como um instrumento de cidadania e de fazer político. Explica-se a relação à importância do passado:

“É preciso se libertar das ‘amarras’, não jogar fora simplesmente o passado e toda a sua história; o que é preciso é considerar o passado como presente histórico. O passado, visto como presente histórico, é ainda vivo, é um presente que ajuda a evitar as várias arapucas… Frente ao presente histórico, nossa tarefa é forjar outro presente, ‘verdadeiro’, e para isso é necessário não um conhecimento profundo de especialista, mas uma capacidade de entender historicamente o passado, saber distinguir o que irá servir para as novas situações de hoje que se apresentem a vocês, e tudo isto não se aprende somente nos livros” [3].

Seria a transformação de passado em “presente histórico”, isto é, “acompanhando o presente real da vida de todos os dias” [4]. É entender que o passado e o presente estão ocorrendo ao mesmo tempo. Lina faz da história e do passado algo que não seja historicista, mas sim algo vivo, um passado que se aprende na vivência de cada um, um passado possuído.
A segunda dimensão seria o tempo enquanto percepção e movimento no espaço, que traria a discussão e a relação do homem com a arquitetura. É o momento de compreender a forma como a arquitetura que torna-se percebida pelo indivíduo.

A arquitetura só torna-se existente quando percebida e captada. “Existir é diferente de ser” [5]. Lina concebe a arquitetura a partir do movimento, “não como um caminhar distraído, mas enquanto dançar ritual coreografado pelo homem que, com seu baile, inaugura um tempo e um lugar únicos. Essa é uma dança bailada ao som da música implícita no solo, nas pedras, no concreto, um som que vem do interior da arquitetura. Contra a rotina funcional, propõe-se uma arquitetura vital que aguce os sentidos e a imaginação, um lugar para a dança, capaz de provocar o momento poético.” [6].

E essa forma de perceber o tempo pelo movimento do corpo no espaço como disse Olivia de Oliveira, está intimamente ligada com a terceira dimensão temporal de Lina, que seria o tempo enquanto matéria-prima e também quinta essência da arquitetura de Lina.

Este momento fica implícito na arquitetura de Lina através dos símbolos e signos por de trás dos objetos e dispositivos carregados de simbolismo, que lhes dão “subst6ancia”. Cada um destes símbolos dá o ritmo da arquitetura de Lina, “batucam e ressoam nessas verdadeiras machines ryytmées. Todos configuram imagens poéticas de um tempo colapso.” [7].

Trata-se de uma arquitetura que manifesta os sentidos, pela tomada de consciência de si mesmo, pela percepção e consequente pela ação do homem. São os elementos construídos “dispositivos de comunicação”, seria a preocupação de aproximar o homem às coisas e domiciliá-lo.

Seria a busca da constante construção da obra de arquitetura, que seria contrária a arquitetura formalista e de formas acabadas. Arquitetura essa que propõe uma obra constantemente em construção, que toma forma com o próprio uso da vida, obra inacabada, em constante movimento, infinita enquanto indeterminada. Esse é o sentido de habitar para Lina: habitar enquanto presença consciente num lugar de contração do mundo, onde já não deveria existir diferença entre casa e cidade, onde “o lazer deixará de ser a aparente oposição do trabalho, e o privado deixará de ser aparente oposição do coletivo [e a casa] estará em todas as partes: será qualquer lugar, cada espaço e cada tempo onde se afirme e se reencontre um sujeito múltiplo, igualitário e real” [8].

Originar esse verdadeiro estado de exceção, ou “forjar um outro presente”, segundo Lina, será a tarefa que cabe a sua arquitetura, impulsionando-nos a ver para além das polaridades opressivas do pensamento que herdamos, e dando forma àquela “razão sonhante” proposta por Beton no primeiro manifesto do surrealismo.

 

¹. Capítulo todo baseado e estudado no livro: “Lina Bo Bardi – Sutis substâncias da arquitetura” de Olivia de Oliveira
[2]. Oliveira, Olivia de – “Lina Bo Bardi – Sutis substâncias da arquitetura” [pag. 349 e 352]
[3]. BO BARDI, Lina. Uma aula de arquitetura. Projeto, São Paulo, n. 133, 1990, p. 103 – 108.
[4]. Citado por FERRAZ, Marcelo Carvalho (org.). Lina Bo Bardi. Op. cit., p. 276.
[5]. OLIVEIRA, Olivia de – “Lina Bo Bardi – Sutis substâncias da arquitetura” [pag. 359]
[6]. OLIVEIRA, Olivia de – “Lina Bo Bardi – Sutis substâncias da arquitetura” [pag. 359]
[7]. OLIVEIRA, Olivia de – “Lina Bo Bardi – Sutis substâncias da arquitetura” [pag. 361]
[8]. QUETGLAS, Josep. Habitar. Circo, Madri, vol. 15, n. 1994, p. 1-8. – Citando em Sutis Substância de Olivia de Oliveira.

 

 

Texto fornecido pela arquiteta Maria Raquel Rangel em comemoração ao centenário da Lina Bo Bardi

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