ESTEIRA ROLANTE DA ARQUITETURA

Por Bruno Breda

CASINHAS

A tecnologia é, talvez, o símbolo máximo da evolução da espécie humana. Entendendo que esse termo significa o encontro do conhecimento técnico sobre o mundo com a aplicação empírica desses conceitos através de artefatos e instrumentos, nossa capacidade criativa foi ampliada de tal forma que as soluções são mais numerosas que os problemas. E então passamos a criar problemas para nossas novidades tecnológicas. Esse é o nosso grande troféu. Enquanto nossos ancestrais caçavam e acendiam uma fogueira na base da faísca, abrimos um pacote de comida congelada e ligamos o microondas. E assim gradativamente resolvemos o mundo em prol do nosso conforto.

Um mundo sem tecnologias é impensável nos dias de hoje. E é óbvio que não devemos abrir mão dessas conquistas, pois de fato muitos problemas do globo têm soluções graças à tecnologia. Mas a dinâmica humana com a tecnologia é também uma faca de dois gumes, pois chegamos num ponto onde não conseguiríamos nos virar sem ela. Eu não consigo me imaginar datilografando esse texto, por exemplo.

Isso nos leva à seguinte questão: nós dominamos a tecnologia ou a tecnologia nos domina? Essa pergunta gera uma discussão com infindáveis subtemas, pois a nossa relação com a tecnologia permeia todas as dinâmicas de relação de um determinado indivíduo com o mundo.

Porém quero levar essa reflexão para o nosso mundo profissional, mais particularmente para o gesto projetual. Quando falamos em projeto, inevitavelmente nos deparamos com a produção técnica de um objeto, um lugar, um espaço, uma casa, um edifício, etc. A grande variedade de softwares destinados ao design permite que tenhamos melhor qualidade técnica nos projetos, pois nos proporciona maior precisão, formas mais eficazes de prever problemas e soluções, simulações cada vez mais próximas da realidade, enfim. E como não poderia ser diferente, o tempo que levamos para fazer tudo isso é cada vez mais curto, graças às novas tecnologias.

E é nesse ponto que chegamos num debate existencial para o arquieto. Certa vez um professor na faculdade disse algo em sala de aula que eu nunca havia parado para pensar e tão pouco me esquecerei algum dia: “Já repararam que quanto mais coisas inventamos para deixar nosso dia-a-dia mais prático, menos tempo nós temos?”. A resposta é tão óbvia e unânime que muitos ficam pasmos ao se deparar com tal pergunta.

A modernização (por assim dizer) da atividade do projeto trouxe uma velocidade feroz para o desenvolvimento das atividades cotidianas de um escritório de arquitetura. Com base na tecnologia que temos disponível, foram montadas verdadeiras linhas de produção de projetos, que resulta numa atividade construtiva muito intensa. É impressionante a quantidade de pranchas de arquitetura que são produzidas num dia de trabalho de um escritório de arquitetura.

Até aí tudo certo, pois é ótimo fazer bons projetos num ritmo elevado. “Só que não”.

Como alguém que experimenta uma droga muito viciante, nós nos apegamos à velocidade da tecnologia, e qualquer outro ritmo de trabalho seria pleno prejuízo. Num mundo onde o Tio Sam martela constantemente “time is Money”, um projeto de arquitetura deve ser tão rápido quanto um pastel de pizza. E tudo bem se o pastel não estiver muito sequinho, ou se veio pouco recheio, pois todos os pastéis estão sendo feitos exatamente da mesma maneira.

Vemos muitas construções pela cidade, sim. Mas quantas delas estão dizendo alguma coisa para a cidade e sua população? Inebriados pela velocidade da tecnologia, nos desconectamos da nossa capacidade reflexiva e perceptiva, pois são ritmos incompatíveis. Os muitos projetos ordinários de mercado imobiliário que são vendidas como balas no semáforo revelam claramente a falta de qualidade no pensamento e reflexão do arquiteto que está escravizado no mercado. E veja bem, isso não é um julgamento pessoal, pois todo indivíduo  precisa morar, vestir-se, alimentar-se, divertir-se, enfim, ganhar o pão.

Um projeto que seja produzido com senso crítico arquitetônico exige tempo para sua devida reflexão conceitual e, consequentemente, gera prejuízo do ponto de vista mercadológico. E existe um zilhão de habitações a serem construídas “para o povo”, e não temos tempo a perder (as grandes construtoras que dominam o nicho de mercado do tipo “minha casa minha vida”, por meio de acordos escusos, que o digam).

Assim gera-se um fenômeno de escassez de qualidade arquitetônica na cidade. Pois só vale a pena gastar mais tempo com um bom projeto se ele for vendido a preços elevados. Ou então se o objeto de projeto for uma concorrência pública, ou algo da alçada institucional. Ou seja, em termos gerais, a arquitetura de qualidade está tão acessível quanto um iate.

Dessa forma, a maior parte da população resigna-se a viver em plantas H, insossas e insalubres, enquanto um pano de fundo de meras construções é conformado para o convívio urbano dos cidadãos. A falta de arte nos entornos que os humanos convivem contribui bastante para que aconteçam doenças no espírito, tornando-nos seres cada vez mais mecânicos que apenas reproduzem padrões de comportamentos pasteurizados e disseminados em escala massiva.

Nota-se que a conquista do avanço tecnológico pode não ser necessariamente uma libertação dos limites da raça humana. Pois através da maneira como a ela é conduzida pelos que controlam a sua aplicação social, a tecnologia aprisiona-nos numa dinâmica de dependência e distancia-nos cada vez mais de nossas verdadeiras capacidades humanas.

Bem… dá pra fazer Arquitetura (assim mesmo, com A maiúsculo) e ganhar dinheiro com isso? Tendo “pedigree” e/ou um bom “Q.I.”, é possível que sim.

Mas se, na atividade profissional, não podermos nos abster do ritmo a toque de caixa, como poderíamos resgatar nosso ritmo humano em meio a tanta complexidade contemporânea? Através da simplicidade. Não é fácil, mas é simples. Por vezes experimente ferver a água no fogo para passar seu próprio café, ao invés de deixa-lo sempre a cargo da cafeteira. Procure entrar em contato com o preparo das suas refeições com alguma frequência, ao. Quando chegar em casa, tente não ligar a televisão ou o computador de imediato, reflita sobre o dia que você acabou de viver, pergunte-se o que aprendeu e lembre-se de quem és. Estejamos nesse mundo sem ser desse mundo. E acredito que assim, pouco a pouco, voltaremos a estar presente no que estamos fazendo aqui e agora.

 

Texto enviado pelo arquiteto Bruno Breda

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